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Pregação, aconselhamento e a sabedoria da graça comum

Muito tem se debatido acerca do uso adequado da sabedoria da graça comum no aconselhamento bíblico fiel. Como professor de aconselhamento que reconhece a suficiência da sabedoria bíblica na ajuda de pessoas em suas necessidades espirituais, tenho buscado desenvolver uma forma clara de explicar qual uso de informação e sabedoria extra-bíblicas é fiel à Escritura e o que constituiria uma negação da suficiência da Palavra de Deus no aconselhamento.

Além de ensinar aconselhamento bíblico, para mim, é um grande privilégio ensinar a classe de introdução a pregação no Seminário Teológico Reformado (Reformed Theological Seminary), em Charlotte, EUA. Ao fazê-lo, creio que descobri um paralelo que nos ajuda. Nós usamos a sabedoria da graça comum no aconselhamento (o ministério privado da Palavra) de forma similar à maneira que adequadamente que usamos a sabedoria da graça comum na pregação (o ministério público da Palavra).

Todos usam a sabedoria da graça comum na pregação (o ministério público da Palavra de Deus)

Ao passo que o chamado de Deus para pastores é “Pregar a Palavra” (2Timóteo 4.1 e seguintes), existem muitas e importantes inserções de graça comum que tornam a pregação mais eficaz. A maioria dos seminários espera que seus alunos de teologia (futuros pastores) tenham tido aula de discurso antes de se matricularem em cursos de homilética (pregação). O treinamento que eles receberam nestas aulas, mesmo se lecionadas por um incrédulo em uma instituição secular, fornece ferramentas para a construção e apresentação de um discurso, o que é de grande valor para o pregador. O estudante aprende que um bom discurso tem um foco ou objetivo principal. Ele<1> também aprende o quão importante é ter os pensamentos bem organizados, com um número limitado de pontos principais que fielmente desenvolvem a ideia principal. Uma aula de oratória ensina o aluno como se conectar com a audiência para que a mensagem seja mais persuasiva. Uma boa aula de oratória aborda as características da apresentação eficaz—variando pausas, tons, ritmos e ímpeto; contato visual; evitando pausas verbais; usando gestos adequados, etc. Estudantes de oratória tem a oportunidade de praticar sua técnica e podem melhorar através da crítica construtiva. Eu tenho observado que estudantes que fizeram aulas de oratória na universidade frequentemente tem uma grande vantagem quando chega a hora de pregar.

Livros didáticos usados nas aulas de pregação em seminários tipicamente aplicam muito destas orientações da graça comum para aspirantes a pregadores. Haddon Robinson, cujo livro Pregação Bíblica (Biblical Preaching) treinou uma geração de pregadores expositivos, encorajou pastores a prepararem mensagens que possuem um ponto principal—a “ideia central”—que é claramente desenvolvido. Ele aborda muitos aspectos importantes de apresentação do discurso. O fundador do movimento moderno de aconselhamento bíblico, Jay Adams<2>, escreveu extensivamente sobre pregação. Seu excepcional livro, Pregando com Propósito (Preaching with Purpose), declara que os sermões devem ter um objetivo claro (derivado do texto da Escritura, usando uma exegese cuidadosa) e deve ser desenvolvido de maneira bem organizada, que diretamente condiz com o público. Ele compartilha orientações sobre as diferenças entre língua falada e escrita e encoraja pregadores a formarem sentenças breves, claras e com linguagem viva.

Enquanto a Bíblia nos diz que devemos pregar a Palavra, a Escritura não ensina exaustivamente princípios para uma apresentação eficaz de um sermão.<3> A Bíblia também não nos diz explicitamente que um sermão consiste de uma ideia central desenvolvida em um número limitado de pontos. Enquanto alguém poderia argumentar que treinar pregadores nos princípios de retórica da graça comum—organização, estrutura, e apresentação—não é absolutamente necessário, a maioria reconheceria que esses princípios são úteis e ajudam a tornar a pregação mais eficaz. Existem outros princípios da graça comum que podem elevar a pregação pública da Palavra—por exemplo, fazer arranjos práticos para que o pregador possa ser visto e ouvido e para que os ouvintes não se distraiam (veja Neemias 8.4–5).

O conteúdo da pregação é a verdade infalível da Palavra de Deus, não a sabedoria da graça comum

Não se engane, no entanto. A mensagem do pregador é a Palavra de Deus. O propósito de seu treinamento nos princípios de retórica da graça comum é para ajudá-lo a entregar a mensagem autoritativa de Deus mais eficientemente. Enquanto existe valor em dedicar parte de sua educação a estes princípios, o foco de seu treinamento precisa ser na Palavra. Seria uma farsa se o pregador só focasse em sua técnica retórica e negligenciasse o conteúdo bíblico. Seria ainda pior se o seminário dedicasse a maior parte de seu currículo a princípios de retórica da graça comum enquanto dedicasse pouco tempo a línguas bíblicas, exegese, e teologia em comparação.<4>

Sabedoria da graça comum pode ajudar nosso aconselhamento (o ministério pessoal da Palavra de Deus)

Você já deve ter percebido onde estou querendo chegar. Creio que existam paralelos significativos entre como aplicamos princípios da graça comum à pregação e como aplicamos sabedoria da graça comum ao aconselhamento sem comprometer a suficiência da Escritura. Assim como os princípios da graça comum de oratória e retórica podem ajudar a nos tornarmos melhores pregadores, a sabedoria da graça comum, como técnicas para ouvir, entender certa condição física/médica, aprender de estudos seculares sobre padrões observados de comportamento humano, etc., podem nos ajudar a sermos melhores conselheiros. Aqueles que treinam conselheiros bíblicos tem tipicamente incluído esses princípios de sabedoria da graça comum em seu ensino.

O conteúdo do nosso aconselhamento é a sabedoria da Palavra de Deus, não a sabedoria da graça comum

O que é realmente importante no ministério público e privado da Palavra é a mensagem. Assim como a atividade do ministério público da Palavra é proclamar a Bíblia, a atividade do ministério privado da Palavra também é proclamar a Bíblia. Contribuições da graça comum são úteis somente à medida que nos capacitam a sermos mais efetivos na entrega da mensagem de Deus a partir da Escritura. Um pregador cuja mensagem se concentra em outra coisa que não a Escritura, como política, psicologia pop ou princípios seculares de liderança, ou cujo ministério se torna mais sobre estilo do que substância, não está sendo fiel ao seu chamado de “Pregar a Palavra” (2Timóteo 4.1 e seguintes).

Da mesma forma, um conselheiro bíblico que se empolga em descobrir e usar a sabedoria da graça comum de fontes seculares, enquanto falha em manter a Palavra de Deus central em seu aconselhamento, está deixando de cumprir seu chamado para aconselhar com a Palavra. Similarmente, enquanto um treinamento ou programa acadêmico em aconselhamento pode oferecer instruções em ferramentas úteis de graça comum, a maior parte desse treinamento deve estar em como compreender e aplicar a Palavra de Deus. Programas de treinamento em aconselhamento que focam em princípios da graça comum (os quais David Powlison chama de “terciários”) negligenciam a Palavra de Deus, a qual somente contém a sabedoria infalível que pode restaurar a alma, iluminar os olhos e nos equipar para toda boa obra (Salmo 19.7–9; 2Timóteo 3.16–17).

Perguntas para reflexão

Como o discernimento da graça comum pode aprimorar o ministério público da Palavra (pregação)? Que lugar você acredita que o discernimento da graça comum tem no ministério privado da Palavra (aconselhamento)? Existem diferenças significativas entre como o discernimento da graça comum pode ser útil no aconselhamento em contraste com a pregação?

<1> Eu estou usando o pronome masculino porque estou falando da pregação que deve ser realizada por homens na igreja (1Timóteo 2.12–13; 3.1–7).

<2> Alguns podem não estar cientes de que o Ph.D. de Jay Adams foi em oratória em uma universidade secular (Universidade de Missouri). Acredito que ele usou muito do que aprendeu nesse programa ao ensinar seus alunos de pregação em Westminster. É até provável que parte do que ele adquiriu em seus estudo no Ph.D. influenciaram seu ensino sobre aconselhamento bíblico.

<3> A Bíblia nos dá alguns princípios de sabedoria para formar e pregar sermões, incluindo os arranjos práticos feitos para a proclamação da Palavra de Deus, em Neemias 8, e princípios gerais de uma oratória sábia contidos em Provérbios. A Escritura também contém muitos exemplos úteis de discursos públicos inspirados, incluindo os sermões nos Evangelhos e Atos, os discursos dos Profetas do Antigo Testamento e as epístolas dos Apóstolos. <4> Em nosso contexto atual, o argumento não é tanto com pregadores que se encantam com a antiga retórica, mas que procuram construir seu ministério com base em princípios da graça comum de entretenimento, administração e marketing. Paulo advertiu sobre isso: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2Timóteo 4.3).

originalmente publicado=">originalmente publicado</a>" no="no" blog="blog" da="da" >Biblical Counseling=">Biblical Counseling" Coalition.="Coalition</a>." Traduzido="Traduzido" por="por" Leonardo="Leonardo" Cordeiro="Cordeiro" e="e" revisado="revisado" Lucas Sabatier.="Lucas Sabatier." Republicado="Republicado" mediante="mediante" autorização.="autorização.">

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