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Acompanhando uma Sessão de Aconselhamento Puritano

Por: Lucas Sabatier Leite


 


Você já se perguntou como um ministro puritano aconselharia alguém? E se pudéssemos ser uma mosca na parede para observar os puritanos realizando o trabalho de médicos da alma? Seria muito interessante, não é? Bem, não podemos voltar no tempo. Mas temos acesso a escritos que ilustram essas conversas de aconselhamento. Aqui está um exemplo.

 

William Perkins (1558–1602), conhecido como o pai do Puritanismo, em seu tratado sobre as “Consolações para as Consciências Perturbadas dos Pecadores Arrependidos”, descreveu um diálogo entre um ministro e um cristão para ilustrar sua própria prática no cuidado das almas.1

 

Para Perkins, cuidar das almas significava cuidar das consciências, “a parte mais terna da alma”.2 Assim, nessa conversa, ele se dirigiu à consciência perturbada para trazer segurança e descanso, ministrando a verdade das Escrituras e considerando os afetos.3

 

Identificando os interlocutores

A conversa ocorre quando o “Pecador” busca a ajuda de um ministro, reconhecido por ter recebido de Deus a capacidade de falar de forma adequada e oportuna:

 

Pecador: Bom senhor, sei que o Senhor lhe deu a língua dos sábios, para que possa ministrar uma palavra no momento certo àquele que está cansado. Portanto, peço-lhe que me ajude em minha miséria... Meu pobre coração está perturbado. Minha corrupção ferve dentro de mim, e Satanás nunca me deixa em paz.4

 

O pecador destaca que essa perturbação em sua mente começou depois que a misericórdia de Deus tocou seu coração e Jesus, o bom Pastor, o alcançou. A resposta do ministro destaca a verdade subjacente que somente a consciência de um verdadeiro crente acusa corretamente.

 

Ministro: O seu caso é um caso abençoado. Pois não ser perturbado por Satanás é ser possuído por ele... pois enquanto o homem forte mantiver o controle, todas as coisas estarão em paz [Col. 1:13; Lc 11:24].5

 

A partir de então, o “Pecador” que busca ajuda é chamado de “Christian” (cristão em inglês)6.

 

O ministro, então, com compaixão, se coloca à disposição para ajudar, convidando Christian a continuar a conversa com honestidade e abertura:

 

Ministro: Em sua miséria, serei para você um Simão, para ajudá-lo a carregar a sua cruz; assim, você poderá revelar-me os seus pensamentos.7

 

Abordando as Motivações com as Escrituras

Christian responde de bom grado a uma série de perguntas feitas pelo ministro, que busca cuidadosamente as motivações que perturbam a mente do cristão. As respostas do cristão revelam que suas dúvidas a respeito de sua salvação estão por trás de seus medos. Sua fé vacilante o leva a pensar na possibilidade de se separar do favor de Deus.

 

Considerando isso, o ministro traz a verdade das Escrituras para mostrar a Christian que a verdadeira fé salvadora não está a salvo das dúvidas:

 

Ministro: O que dirás então do homem que disse: “Eu creio, Senhor; ajuda-me na minha incredulidade!” [Marcos 9:24]? E de Davi, que lamentou assim: “Acaso se foi para sempre a sua misericórdia? Falhou para sempre a sua promessa? Esqueceu-se Deus de ser misericordioso? Encerrou ele a sua misericórdia na sua ira?” [Salmo 77:8-9]. Sim, ele continua, como um homem em desespero: “E eu disse: Esta é a minha morte!” [v. 10]. Com isso, fica evidente que um homem dotado de verdadeira fé pode sofrer não apenas ataques de dúvida, mas também de desespero. Isso fica ainda mais evidente quando ele diz em outro lugar: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda darei graças; ele é o meu auxílio presente e o meu Deus” [Sl 42:11].8

 

Como Christian parecia hesitante em se comparar com Davi, o ministro começa a sondar suas afeições, usando-os como evidência das inclinações do coração de Cristão:

 

Ministro: Diga-me apenas uma coisa sobre você. Essas dúvidas que você sente, você gosta delas? Ou você encontra algum prazer nelas? E você as alimenta?9

 

Como era de se esperar, Christian nega veementemente isso. Diante disso, o ministro oferece uma reflexão sobre a condição do homem por natureza e graça para contextualizar as dúvidas de Christian nesta vida terrena.

 

Oferecendo Orientação Prática

Em seguida, o ministro passa a fornecer sugestões práticas para suprimir as dúvidas. Ele recomenda o uso de três meditações.

 

Primeiro, Christian deve meditar sobre o fato de que Deus ordena a crença em Cristo (1 João 3:23).

 

Segundo, Christian deve considerar que as promessas de salvação em Cristo são gerais e não excluem ninguém que crê. Aqui, o ministro chama o cristão a concluir, por meio da lógica simples, que, por crer, nada o excluiria da misericórdia de Deus. Além disso, ele o convida a lembrar-se do seu batismo e da participação na Ceia do Senhor como evidências da graça salvadora de Deus para ele.

 

Terceiro, Christian deve lembrar-se de que duvidar e desesperar ofendem a Deus tanto quanto outros pecados.10

 

A essas três meditações, o ministro acrescenta esta prática:

 

Ministro: Quando o teu coração estiver aflito com incredulidade e dúvidas, então, sem hesitar, recorre a Ele. Em algum lugar secreto, humilhe-se diante de Deus, derrame seu coração diante Dele. Peça a Ele, por Sua infinita misericórdia, que opere a fé e suprima sua incredulidade, e você verá que “o Senhor é rico para com todos os que invocam o seu nome” [Romanos 10:12].11

 

Dependência e Proatividade

Esta claro para o ministro que seu trabalho é insuficiente. Deus precisa intervir para fortalecer a fé de Christian. As três meditações e o exercício prático que ele recomenda não são meramente um mecanismo, um método terapêutico. Eles são focados em Deus. Christian deve buscar agradá-Lo e depender Dele para que suas dúvidas perturbadoras sejam dissipadas.

 

O ministro, contudo, não hesita em abordá-lo com confiança. Tanto que o convida a se aproximar de Deus em humilde oração e com um santo desejo por Sua infinita misericórdia. Mais uma vez, o ministro apela aos afetos de Christian para que, estando inclinados a Deus, sirvam como confirmação de sua fé salvadora:

 

Ministro: Diga-me uma coisa francamente: você diz que não sente nenhuma certeza da misericórdia de Deus?

           

Christian: De fato, não.

 

Ministro: Mas você deseja de todo o coração senti-la?

 

Christian: Sim, desejo.

 

Ministro: Então não duvide, você a sentirá.

 

Christian: Ó, bendito seja o Senhor, se isso for verdade.

 

Ministro: Ora, é a mais pura verdade, pois aquele que deseja qualquer graça de Deus que conduza à salvação, se a desejar verdadeiramente, a terá. Pois assim Cristo prometeu: “A quem tiver sede, darei de graça da fonte da água da vida” [Ap 21:6]. Com isso, entendo que, se alguém deseja a água da vida, tendo um apetite por ela, terá o suficiente. Portanto, não tenha medo. Use apenas os meios que Deus designou para alcançar a fé, como a oração sincera, a escuta reverente da Palavra de Deus e recebendo os sacramentos. E então, você verá isso se confirmar em si mesmo.12

 

Reconhecendo seu desejo pela misericórdia de Deus, Christian encontra conforto nas verdades apresentadas pelo ministro. Ele reconhece sua fome por justiça e pelo Reino Celestial. E assim, o ministro o convida a agradecer a Deus por essas coisas, pois são “movimentos do Espírito de Deus que habita nele”.13

 

Um Processo Contínuo

Contudo, à medida que a conversa prossegue, os temores de Christian voltam a ser uma questão perturbadora em sua mente. Devido à sua constante consciência de desagradar a Deus em suas ações, Christian teme não ter se arrependido verdadeiramente e que sua profissão de fé seja hipócrita.

 

A isso, o ministro responde apelando para a graça do evangelho:

 

Ministro: Você não precisa temer. “Pois onde o pecado abunda (isto é, o conhecimento e o sentimento do pecado), aí superabunda a graça.”14

 

Então, mais uma vez apelando para os sentimentos, ele acrescenta:

 

Ministro: Essas corrupções que você sente e esses pecados que você comete, você os odeia. Você está descontente consigo mesmo por causa delas e se esforça para abandoná-las.15

 

Assim, à medida que Christian compreende a lógica do testemunho de seus afetos, ele encontra grande consolo no conselho do ministro. Ele declara:

 

Christian: Estou até mesmo com o coração doente por causa de meus inúmeros pecados e fraquezas; e estas boas palavras que você profere são como jarras de vinho para refrescar minha alma cansada, sobrecarregada e atormentada [Cantares 2:5].16

 

Contudo, Christian ainda reconhece um distanciamento entre seu desejo de agradar a Deus e a execução de sua obediência. O ministro então explica:

 

Ministro: Deus considera mais o afeto de obedecer do que a obediência em si... Pois a perfeição da vida de um cristão reside no sentimento e na confissão de suas imperfeições.17

 

Ele também explica a Christian que aqueles que Deus santifica, ainda, estão trabalhando sobre suas fraquezas nesta vida para que possam ver a grande necessidade que têm da justiça de Cristo, para que seu orgulho seja subjugado pela graça e para que sejam exercitados continuamente na luta contra o pecado em busca da piedade.18

 

Conclusão: Consolo e Gratidão

No final, Christian agradece o consolo das palavras do ministro, ao mesmo tempo que reconhece a misericórdia e a consolação de Deus por trás de seu conselho.

 

Christian: Suas respostas reconfortantes refrescaram muito minha mente aflita. Que o Deus de toda misericórdia e consolação o recompense por isso.19

 

E o ministro reconhece com humildade que deu o que não lhe pertence.

 

Ministro: Eu falei o que Deus, por meio de Sua Santa Palavra, revelou.20

 

Perguntas para Reflexão

Se fosse possível, qual puritano ou outra figura da história da igreja você gostaria de observar aconselhando? Por quê?

 

Que perguntas você faria a eles?

 

Referências:

[1] Perkins serviu como ministro da Igreja de Santo André em Cambridge de 1584 até o ano de sua morte.

 

[2] Perkins, “Um Discurso de Consciência”, 8:93.

 

[3] Perkins, “Um Tratado sobre se um Homem está em Condenação ou Graça”, 8:571.

 

[4] Ibid., 8:571.

 

[5] Ibid., 8:571.

 

[6] Nota do tradutor: Perkins faz um jogo de palavras atribuindo o nome Christian que em inglês quer dizer cristão.

 

[7] Ibid., 8:572.

 

[8] Ibid., 8:572.

 

[9] Ibid., 8:573.

 

[10] Ibid., 8:573–574.

 

[11] Ibid., 8:574.

 

[12] Ibid., 8:575.

 

[13] Ibid., 8:575.

 

[14] Ibid., 8:577.

 

[15] Ibid., 8:577.

 

[16] Ibid., 8:577.

 

[17] Ibid., 8:578.

 

[18] Ibid., 8:578.

 

[19] Ibid., 8:580.

 

[20] Ibid., 8:580.

 

Sobre o Autor

Lucas Sabatier M. Leite é professor de aconselhamento bíblico no Seminário Bíblico Palavra da Vida e no Seminário Foco Seminary, no Brasil, onde atua como missionário da Faith Global Missions. Ele obteve seu doutorado em Aconselhamento Bíblico e Teologia Sistemática pelo Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville, Kentucky. Também é membro do Comitê de Ética da ABCB e do Comitê Editorial do BLOG da ABCB. Lucas é casado com Bella e juntos têm três filhos.

 

 

Editor e Tradução: Alex Mello

Os artigos publicados no Blog da ABCB representam o pensamento de seus autores e não constituem uma posição oficial da ABCB.

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