Quando a teologia toca o coração: A teologia experiencial no Aconselhamento Bíblico

Por: Alex Mello
Todo conselheiro bíblico é um teólogo, mesmo sem um diploma de Teologia. Aconselhar biblicamente é pensar teologicamente. Quando ajudamos alguém com ansiedade, raiva, depressão, amargura, pecado ou crise familiar, lidamos com questões sobre Deus, o ser humano, pecado, redenção e santificação, baseadas na Bíblia. A questão, então, não é se o conselheiro faz teologia, mas se ela se conecta com a experiência do aconselhado.
Tenho me interessado cada vez mais por uma dimensão da teologia que pode enriquecer nosso trabalho como conselheiros bíblicos: a teologia experiencial reformada, presente, especialmente , nos puritanos ingleses.
O que é teologia experiencial?
Joel Beeke afirma que "a teologia experiencial ou experimental aborda a maneira como o cristão vivencia a verdade da doutrina cristã em sua vida[1].” Não é uma teologia baseada na experiência humana, mas em como a verdade bíblica é experimentada ou vivida.
A teologia experiencial não pergunta apenas: “O que a Bíblia ensina sobre Deus?”. Ela pergunta: “Como essa verdade sobre Deus deve impactar minha vida?”.
Em vez de só perguntar: “O que é a soberania de Deus?”, pergunte: "como a soberania de Deus muda a forma como você lida com as coisas que não consegue controlar". E em vez de perguntar: “O que é a santificação progressiva?”, pergunte: "como seus pensamentos e sentimentos em relação ao pecado têm mudado?”. Quando conversar sobre confiar em Cristo, explore como essa confiança se apresenta ou não diante das inseguranças e incertezas da vida, e como isso afeta os pensamentos e sentimentos do aconselhado.
É aí que a teologia experiencial entra em cena, penetrando a vida. Beeke explica que ela busca, com base na verdade bíblica, entender como as coisas acontecem e como deveriam acontecer na vida cristã. Ela toca o coração e desafia a consciência, os pensamentos, os desejos e as emoções do aconselhado. E, na minha opinião, essa é a grande contribuição dela para o Aconselhamento Bíblico.
Verdade e experiência
Lembre-se, a experiência do aconselhado não define a verdade; a Escritura sim. Mas isso não significa que a experiência dele deva ser ignorada, mesmo que esteja errada. Essa experiência precisa ser interpretada e guiada pelas Escrituras.
Os puritanos tinham um interesse enorme por coisas como a consciência, as emoções, as tentações, as dúvidas, a meditação e a experiência com Deus. Mas eles não achavam que a experiência pessoal era fonte de verdade. Para eles, a experiência tinha que ser sempre vista à luz da Palavra de Deus.
Por exemplo, quando alguém nos diz: “Estou muito preocupado com o futuro”, a gente pode responder prontamente com Filipenses 4.6–7. E tá tudo certo fazer isso. Mas dá para ir um pouco mais fundo.
Podemos perguntar: “O que exatamente te preocupa no futuro?”, “Por que você tem tanto medo que isso aconteça?” e “Como esse medo tem te atormentado?”. Então, podemos trabalhar a doutrina do amor de Deus em relação ao medo (1Jo 4.7-21): “O que a Bíblia fala sobre o amor de Deus?”, “Como você sente esse amor na sua vida?” e “Como esse amor pode te ajudar a amar o próximo em vez de se preocupar só com você?”.
Claro que o nosso objetivo não é só fazer a pessoa se sentir bem. O nosso objetivo é ajudar a pessoa a ter pensamentos, emoções e desejos que estejam de acordo com a Bíblia e assim glorifiquem a Deus. Ou seja, viver a verdade bíblica com o coração inteiro. Deixar que a Palavra de Deus guie não só os pensamentos, mas também a percepção, as emoções e os sentimentos.
Devemos aprender com os puritanos que a boa teologia não é só pra encher a cabeça, mas pra aquecer o coração e transformar a vida.
Aqui vão algumas dicas práticas:
Primeiro, mergulhe na teologia bíblica, sistemática e prática. Um conselheiro bíblico precisa saber bem o que tá ensinando. Se a doutrina for fraca, o aconselhamento também vai ser. É importante conhecer as Escrituras e entender as grandes doutrinas. A teologia experiencial não é contra a teologia bíblica ou sistemática, mas usa elas pra levar a doutrina para o coração.
Segundo, explore a linguagem da experiência pra entender o coração. Preste atenção quando o aconselhado fala: “Eu sinto…”, “Eu odeio…”, “Eu tenho medo de…”, “Eu não suporto …”. Essas frases são chaves pra gente entender como a pessoa tá vendo a realidade. Depois, levamos essa visão pra Escritura.
Terceiro, faça perguntas que liguem doutrina e vida. Depois de ensinar uma verdade bíblica, pergunta: “O que essa verdade muda na forma como você tá enxergando sua situação?”, “Como você pode viver essa verdade, como ela se aplica na sua situação?”, “Como essa verdade deve mudar seus desejos e seus sentimentos?”.
Quarto, leve a verdade até os sentimentos.
Como conselheiros bíblicos, não precisamos ter medo de conversar sobre sentimentos ligados a termos bíblicos como amor, alegria, esperança, medo, tristeza, desejo e prazer. Embora esses termos não representem simplesmente sentimentos, eles abordam questões presentes nas experiências pessoais dos nossos aconselhados. Explorar essas experiências ajuda o aconselhado a entender melhor seus sentimentos, organizá-los e interpretá-los, para que possa expressá-los em palavras, assim, o conselheiro pode guiá-lo na compreensão de como a Bíblia se relaciona com essas experiências.
Estou seguro de que a Teologia Experiencial, como praticada pelos pastores puritanos ingleses e resgatada por autores contemporâneos, oferece contribuições valiosas para o aconselhamento bíblico. Essa abordagem nos ajuda a aplicar conscientemente a revelação bíblica objetiva à subjetividade da experiência dos nossos aconselhados, ou seja, “faz com que a teologia verdadeiramente chegue ao coração”.
Questões para Reflexão:
Meu aconselhamento se parece mais com uma aula de teologia ou com uma cirurgia em que a Palavra de Deus é viva e penetra no coração?
Permito que o aconselhado fale de seus sentimentos e emoções, mesmo que pareçam confusos e equivocados, buscando ali entender sua motivação para seus comportamentos?
Me preocupo com como as doutrinas bíblicas são percebidas e afetam os pensamentos, sentimentos, emoções, motivações e desejos do meu aconselhado ou meu foco se limita ao comportamento externo?
Referências sobre o tema:
BEEKE, Joel R. What Is Experiential Theology?
Disponível em: https://joelbeeke.org/what-is-experiential-theology/?
BEEKE, Joel R., JONES, Mark. Teologia Puritana: Doutrina para a vida. São Paulo: Vida Nova, 2016.
YUILLE, J. Stephen. “Blessedness in the Piety of William Perkins: Objective Reality or Subjective Experience?” Puritan Reformed Journal 1, no. 2.
Sobre o autor: Alex Mello é pastor e conselheiro bíblico na Primeira Igreja Batista no Parque Meia Lua em Jacareí-SP. É professor, membro do Comitê de Ética e Editor do BLOG da ABCB; é também membro da equipe ministerial da Every Home for Christ Brasil. Atualmente cursa seu doutorado em Ministério Pastoral com ênfase em missões no Seminário Betel Brasileiro; é Mestre em Ministérios Familiares pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida. Graduado em Engenharia Eletrônica, com Especialização em Administração Pública e Mestrado em Ciências Aeroespaciais. Vive em São José dos Campos com sua esposa Jacqueline e filha Júlia.
Revisão: Lucas Sabatier
[1] tradução livre de BEEKE, Joel R. What Is Experiential Theology? Disponível em: https://joelbeeke.org/what-is-experiential-theology/?




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