Quatro coisas que você deve saber sobre o TDAH
- Bruno Philippe
- há 10 horas
- 7 min de leitura

Por: Dr. Charles Hodge
Nas três décadas em que tenho participado do movimento de aconselhamento bíblico, um dos papéis que desempenhei foi o de avaliador do valor de novas pesquisas médicas. No fluxo constante de pesquisas publicadas, há artigos que devem interessar a nós, que atuamos no aconselhamento bíblico. Ler e analisar esses artigos é importante tanto para conselheiros quanto para aconselhados.
Recentemente, minha viagem matinal pelo Wall Street Journal com uma xícara de café me proporcionou um interessante artigo sobre medicamentos para TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade). Vamos examinar esse artigo e mais alguns outros que abordam o tema. É sempre gratificante, como conselheiro bíblico e médico, quando fontes seculares começam a afirmar em público coisas que venho afirmando há décadas.
O artigo publicado na edição de 19 de novembro de 2025 do Wall Street Journal, “Millions of Kids Are on ADHD Pills. For Many it is the Start of a Drug Cascade” (Milhões de crianças tomam remédios para TDAH. Para muitas, é o início de uma cascata de medicamentos), discute os resultados em crianças que começam a tomar medicamentos à base de anfetaminas/estimulantes já aos três anos de idade.1 Embora o artigo afirme que algumas crianças se beneficiam da medicação, o resultado mais comum será o aumento da prescrição de medicamentos.
O artigo explica que, de acordo com a American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatria) (AAP), o padrão de atendimento para crianças com TDAH é primeiro a Parent-Child Interaction Therapy (Terapia de Interação Pais-Filhos) (PCIT) 2. No entanto, encontrar profissionais que ofereçam esse atendimento é difícil. O resultado para os pais que estão desesperados por ajuda para evitar que seus filhos sejam expulsos da creche ou fiquem para trás na escola é que metade das crianças diagnosticadas com TDAH será tratada com medicamentos psicoestimulantes. O artigo continua documentando que 25% dessas crianças acabarão tomando vários medicamentos, incluindo antipsicóticos, antidepressivos e sedativos, sem grandes benefícios.
Embora o artigo seja desanimador em muitos aspectos, ele aponta para uma oportunidade. Se o diagnóstico de TDAH não é certo e o tratamento medicamentoso arriscado, devemos ser capazes de oferecer aos pais e educadores uma alternativa melhor. Para aqueles pais e filhos que lutam contra a hiperatividade, a desatenção e a impulsividade, existem princípios bíblicos que podem ser aplicados.
O que ninguém poderia prever quando comecei na medicina, há 50 anos, era que a definição de TDAH mudaria. Em 1970, era considerado um problema da infância que se resolveria com o crescimento e a vida adulta. Em 1980, o diagnóstico foi adicionado à terceira revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-3), como um transtorno da infância. Em 2013, os critérios do DSM foram alterados para estender o diagnóstico a adultos. Desde então, o número de adultos diagnosticados com TDAH e tratados com medicação aumentou exponencialmente.
No artigo de 2023, “The Making of Adult ADHD: The Rapid Rise of a Novel Psychiatric Diagnosis” (A Formação do TDAH em Adultos: A Ascensão Rápida de um Novo Diagnóstico Psiquiátrico), os autores argumentam que o TDAH em adultos não é um diagnóstico válido.3 Eles fazem questão de ressaltar que isso não significa que dificuldades com atenção, hiperatividade e impulsividade não existam. Certamente existem, mas não constituem uma nova doença ou a persistência do TDAH infantil na vida adulta.
Eles também observaram que “uma alegação comum é que, como os psicoestimulantes melhoram a cognição de indivíduos diagnosticados com TDAH em adultos, então eles devem estar tratando uma doença subjacente. Mas essa lógica é falha. Os psicoestimulantes melhoram a cognição de todos, inclusive de pacientes sem o transtorno…” Considerando que os medicamentos usados para tratar adultos apresentam os mesmos efeitos colaterais que os usados em crianças, parece haver riscos significativos envolvidos. Deveria haver uma maneira melhor de lidar com o problema.
O terceiro artigo de interesse questiona a compreensão teórica de como o TDAH funciona no cérebro humano. No cerne do TDAH está o conceito de que os medicamentos utilizados afetam a área do cérebro responsável pela atenção. Para adultos e crianças afetados, medicamentos como anfetaminas são prescritos e presume-se que melhorem a atenção.
Uma pesquisa publicada na revista Cell em 24 de dezembro de 2025 nos deu um presente de Natal. O título da pesquisa já entrega a conclusão principal: “Stimulant Medications Affect Arousal and Reward, Not Attention Networks” (Medicamentos estimulantes afetam a excitação e a recompensa, não as redes de atenção).4 Utilizando ressonância magnética funcional (fMRI), esta pesquisa examinou o efeito que a medicação tem nas áreas associadas à capacidade de prestar atenção.
Por 50 anos, a comunidade médica trabalhou com a premissa de que os medicamentos psicoestimulantes melhoram a atenção em crianças e, agora, em adultos. Este estudo demonstra que não. Em vez disso, os pesquisadores descobriram que o medicamento afetou áreas associadas à recompensa e à excitação.
Em vez de estimular as áreas associadas à atenção, o principal benefício pode vir da capacidade de permanecer acordado. É difícil prestar atenção quando não se consegue ficar acordado. Esta pesquisa indica que a teoria atual de que o TDAH é um transtorno da capacidade de prestar atenção está agora em dúvida.
Quatro coisas que você precisa saber sobre o TDAH
O TDAH não é uma doença. A teoria que sustenta essa ideia está sendo colocada em cheque. Em vez de uma doença, trata-se de uma diferença na maneira como aprendemos e como organizamos nossas vidas.5 Assim, a questão passa a ser: como podemos ajudar o indivíduo que se distrai facilmente, às vezes é impulsivo e tem dificuldade em se manter imóvel? Creio que podemos ajudar o crente adulto incentivando-o a viver intencionalmente.
Quando penso em passagens bíblicas que se aplicam à vida intencional, o Salmo 90 me vem à mente. É o único Salmo atribuído a Moisés, e nele encontramos um princípio bíblico que pode ser útil para quem se distrai facilmente.
Moisés nos lembra, no versículo 10, que nosso tempo aqui é limitado: “ Os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta”. Se desejamos realizar algo no tempo que temos, devemos ser intencionais. No versículo 12, Moisés nos adverte: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.”
Planejar é útil
Se nós, que temos facilidade para nos distrair, tivermos sucesso em qualquer coisa na vida, será porque planejamos fazê-lo. Acredito que é vontade de Deus que planejemos nossos dias de forma a honrá-lo. Deus nos capacitará a fazer a Sua vontade (Filipenses 2:12-13). O planejamento pode assumir muitas formas. Para mim, nos últimos 30 anos, tem sido um Franklin Planner.6 Pode ser qualquer método organizado de numerar nossos dias. Pode exigir a divisão desses dias em incrementos de quinze minutos. Meu trabalho faz isso por mim, já que as consultas médicas têm duração de vinte e quarenta minutos.
Faça uma pausa das telas
Muitos já escreveram sobre os efeitos adversos das mídias sociais e as dificuldades associadas aos smartphones que capturam nossa atenção.7 Recuperar o controle da nossa atenção pode exigir uma pausa na conexão com a internet. Voltar ao antigo celular de flip sem acesso à internet pode ser útil.
Encontrando nosso lugar na vida
A dificuldade de concentração nem sempre foi um problema para crianças e adultos. Isso se tornou um problema maior à medida que a educação se concentrou no aprendizado em sala de aula, que exigia que os alunos ficassem sentados por longos períodos. Também se tornou um problema à medida que o trabalho para adultos passou a ser realizado em ocupações que não oferecem variedade ou a possibilidade de se movimentar durante o processo. As escolhas educacionais e de carreira precisam ser feitas levando em consideração essas diferenças.
A leitura de pesquisas é útil
Por fim, é importante revisar as pesquisas atuais. Há muito na medicina que se baseia em teoria, mas às vezes é apresentado como fato. É bom saber quando as teorias são questionadas ou refutadas.
Revisar a literatura médica certamente não é necessário para aconselhar pessoas com dificuldades de aprendizagem com base nas Escrituras. Mas, pode ser útil ao lidar com aconselhados que chegam com o diagnóstico de TDAH. É útil saber que as pesquisas atuais indicam que estamos lidando com uma diferença na aprendizagem, não com uma doença.
Questões para reflexão:
Como você aborda os aconselhados que chegam com diagnósticos?
Quais recursos você usa para entender o que o diagnóstico significa?
Referências
1. Shallini Ramachandran, Betsy McKay, and Tom McGinty, “Millions of Kids Are on ADHD Pills. For Many, It’s the Start of a Drug Cascade,” The Wall Street Journal, November 19, 2025, retrieved electronically.
2. Intervenção clínica baseada na psicologia comportamental que treina pais, por meio de orientação em tempo real, para fortalecer o vínculo com a criança e reduzir comportamentos disruptivos. (Nota do Tradutor).
3. Mark Ruffalo and S. Nasir Ghaemi, “The Making of Adult ADHD: The Rapid Rise of a Novel Psychiatric Diagnosis,” The Psychiatric Times, September 11, 2023, Vol 40, Issue 9, retrieved electronically.
4. B.P. Kay, M.D. Wheelock, J.S. Siegel, et al. “Stimulant Medications Affect Arousal and Reward, Not Attention Networks,” Cell, Dec 24, 2025,188(26): 7529-7546. e20. DOI: 10.1016/j.cell.2025.11.039. PMID: 41448140.
5. T. A. Hartanto, C. E. Krafft, A. M. Iosif, J. B. Schweitzer, “A trial-by-trial analysis reveals more intense physical activity is associated with better cognitive control performance in attention-deficit/hyperactivity disorder,” Child Neuropsychology, 2015; 1 DOI: 10.1080/09297049.2015.1044511.
6. O Franklin Planner (ou Planejador Franklin) é um sistema de gerenciamento de tempo e produtividade criado em 1984 por Hyrum W. Smith. O nome é uma homenagem a Benjamin Franklin, que utilizava um caderno pessoal para monitorar seu progresso em 13 virtudes (Nota do tradutor).
7. See R U Hooked, Jonathan Smith, Tristan Press, and The Anxious Generation, Jonathan Haidt, Penguin Publishing.
Sobre o autor: Dr. Charles Hodge exerce medicina em Indianápolis, Indiana, pela Ascension St. Vincent Health. Ele é formado pela Escola de Medicina da Universidade de Indiana, pela Universidade Liberty e pelo Seminário Teológico Batista Liberty, com diplomas em medicina, aconselhamento e religião. Possui certificação em Medicina de Família e Geriatria e é terapeuta conjugal e familiar licenciado. O Dr. Hodges leciona e oferece aconselhamento no Ministério de Aconselhamento Bíblico da Faith e ministra cursos sobre temas médicos em aconselhamento bíblico nos Estados Unidos e no exterior (inclusive nas Conferências da ABCB). Ele e sua esposa, Helen, são casados há 50 anos e têm quatro filhos e 13 netos. Em seu tempo livre, ele gosta de jogar golfe e correr..
Publicação Original:
Tradução: Alex Mello
Revisão: Fernando Muniz
* O conteúdo dos artigos são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente uma posição oficial da ABCB.



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