top of page

A CASUÍSTICA PURITANA E O ACONSELHAMENTO BÍBLICO: Aprendendo com pastores piedosos do passado.

ree

Por Alex Mello

INTRODUÇÃO

Os últimos anos viram crescer o interesse pela teologia e prática puritanas. Muitas obras têm sido escritas sobre seus tratados teológicos, sermões, catecismos, manuais de piedade e conselhos pastorais. Mesmo sob o peso do distanciamento histórico e cultural, creio que a prática contemporânea do Aconselhamento Bíblico, principalmente em seu âmbito pastoral, pode colher muitos benefícios ao olhar para a tradição pastoral dos puritanos ingleses, especialmente sua casuística.

Joel Beeke e Mark Jones, em sua monumental obra Teologia Puritana, esclarecem que a casuística puritana “é teologia prática, instruindo os cristãos a viverem com integridade, humildade e alegria na presença de Deus em cada dia da sua vida.1 Esses autores afirmam, ainda, que “a casuística era a arte da teologia moral aplicada com integridade bíblica a vários casos com que alguém é confrontado em sua consciência ou vida.”Só por essas definições, percebemos a semelhança entre a casuística puritana e o aconselhamento bíblico.

Ao desenvolver sua casuística, os pastores puritanos se tornaram sábios médicos da alma, aprimorando a habilidade de analisar cuidadosamente a situação espiritual de seu paciente, ministrando os remédios adequados. Eles produziram robustas obras práticas, como por exemplo, A Christian Directory4, de Richard Baxter, considerado “um dos manuais de aconselhamento bíblico mais práticos e úteis já escritos.”3

Este artigo pretende apontar como o Aconselhamento Bíblico pode se beneficiar do estudo da Casuística Puritana, destacando pontos de contato e contribuições específicas para o nosso ministério como conselheiros bíblicos.

PONTOS DE CONTATO ENTRE A CASUÍSTICA PURITANA E O ACONSELHAMENTO BÍBLICO

Timothy Keller, em seu artigo “Puritan Resources for Biblical Counseling”(Recursos Puritanos para o Aconselhamento Bíblico) afirma que os puritanos foram a primeira escola protestante de aconselhamento bíblico ao combinaram um sólido conhecimento das Escrituras com uma leitura perspicaz do coração humano. Embora não seja correto fazer uma ligação direta do casuísmo puritano inglês dos séculos XVI e XVII com o aconselhamento bíblico atual, podemos reconhecer quatro importantes pontos de contato entre eles:

1. O mesmo compromisso com a suficiência das Escrituras.

Assim como os Conselheiros Bíblicos de hoje, os puritanos, também, estavam comprometidos com a autoridade funcional das Escrituras. Para eles, elas eram o manual diretivo completo para lidar com todos os problemas do coração. Assim como os conselheiros, os puritanos têm a Escritura não apenas como conhecimento teórico, mas como o meio pelo qual Deus edifica, conforta e confronta seu povo.

É digno de nota que os pastores puritanos só tinham as Escrituras, e livros derivados dela, para cuidarem das almas. Eles aconselharam praticamente livres da influência dos modelos terapêuticos da psicologia com os quais temos que lidar hoje. Desta forma, podemos considerar sua prática de aconselhamento como não integracionista e baseada na suficiência das Escrituras.

2. A mesma visão antropológica

Tanto os puritanos como os conselheiros bíblicos reconhecem o coração humano como a fonte do intelecto, da vontade e das emoções. A casuística puritana não ignorava as influências contextuais externas de cada caso, mas afirmava que a raiz do sofrimento e do pecado estava no coração, no interior de cada homem.

A visão puritana do coração como centro da vida pode ser vista, por exemplo, em obras como Keeping the Heart (Guardando o Coração) de John Flavel, A Treatise of the Passions and Faculties of the Soul of Man (Um tratado das paixões e faculdades da alma do homem) de Edward Reynolds.

Em sua antropologia, os puritanos davam também uma grande importância a consciência, que para eles era “um aspecto universal da natureza humana, mediante a qual Deus estabeleceu sua autoridade na alma para que os homens racionalmente julguem a si mesmos.6 O casuísmo puritano lidava então com o que chamavam de “casos de consciência”, em que a consciência corrompida pelo pecado deveria ser restaurada por meio da instrução da Palavra de Deus e da iluminação do Espírito Santo, levando o cristão à alegria de uma boa consciência diante de Deus.

3. A mesma perspectiva do problema

Os puritanos eram mestres em diagnosticar os problemas a partir do coração relacionando-os ao pecado. Eles usavam categorias bíblicas como afeição, idolatria, inclinação, consciência e engano. Essas mesmas categorias continuam essenciais no aconselhamento bíblico.

É muito conhecido o livro de John Owen, The Mortification of Sin (A Mortificação do Pecado), sua obra magna sobre a mortificação do pecado no coração, em que busca atacar o mal na morte da raiz e não apenas nos comportamentos. Ao contrário do que se pensa, os puritanos, não se concentravam apenas no comportamento externo, mas principalmente, nas motivações e desejos do coração.

Embora sejam categóricos em apontar a raiz do problema na luta do pecado no coração, os puritanos também desenvolveram um sofisticado sistema de diagnóstico para problemas pessoais, considerando uma complexidade de causas espirituais, emocionais e demoníacas que podem coexistir e inter-relacionar-se.

Eles consideravam o pecado como ações intencionais e voluntárias e também sustentavam a compreensão do pecado remanescente e inerente a carne. Desta forma, traziam a perspectiva de que os problemas são causados pelo pecado e que a mudança pode ser gradual, fruto de uma luta constante contra a carne pelo poder da Palavra e do Espírito.

4. A mesma proposta de solução

Os puritanos, assim como os conselheiros bíblicos, não buscavam apenas corrigir comportamentos, mas conduzir pessoas ao arrependimento profundo, ao consolo do evangelho e ao crescimento em santidade. Para ambos, o remédio era essencialmente espiritual, a fé no evangelho, acompanhada do arrependimento e do desenvolvimento de uma santificação progressiva.

Por exemplo, em Keeping the Heart John Flavel aponta que o processo de lançar fora as corrupções e nutrir os princípios renovados da graça é o grande trabalho do cristão. Por sua vez, é celebre a frase de John Owen, “Mate o pecado, ou o pecado estará matando você"; o mesmo autor afirma, em Indwelling Sin in Believers, que o velho homem deve ser crucificado com Cristo; o corpo do pecado deve ser destruído. Esta é a obra do Espírito em nós — despindo o velho homem e seus feitos.”7

CONTRIBUIÇÕES DA CASUÍSTICA PURITANA PARA O ACONSELHAMENTO BÍBLICO

1. Um modelo de diagnóstico espiritual robusto

O aconselhamento bíblico moderno pode ser beneficiar muito do método puritano de discernimento dos estados espirituais — dúvida, frieza, presunção, arrogância, escrúpulos, tempestades da consciência. Beeke e Jones afirmam que esses diagnósticos não eram algo subjetivo, mas baseados em sinais bíblicos, em padrões do coração e em estruturas teológicas coerentes. Por exemplo, segundo Keller, o livro Precious Remedies Against Satan's Devices, de Thomas Brooks, discute doze tipos de tentação, oito variedades de desânimo, oito tipos de depressão e quatro classes de orgulho espiritual.

Não é incomum, nós conselheiros bíblicos trabalharmos com diagnósticos espirituais genéricos, podemos aprender com a Casuística Puritana a ter uma maior categorização das experiências do coração, algo que pode ser muito útil para a formação e treinamento de novos conselheiros.

2. Um método de aplicação doutrinária à vida real

Os puritanos viam as doutrinas das Escrituras como verdades que transformam. Por isso, a casuística puritana não era um exercício técnico e mecânico, mas uma ponte entre o conteúdo teológico e a vida comum. 

A metodologia de aconselhamento puritano trabalhava mais com doutrinas sistematizadas do que com versículos isolados. Alguns exemplos disso são:

• a doutrina da providência para tratar da ansiedade, medo e perda;

• a doutrina da união com Cristo para tratar culpa e identidade;

• a doutrina da santificação para lidar com hábitos de pecado;

• a doutrina da adoção para curar feridas relacionais;

• a doutrina da soberania de Deus para entender eventos traumáticos; e

• a esperança futura para enfrentar as lutas do tempo presente.

Penso que ao enfatizarmos esse modelo, evitamos o risco de nos tornarmos pragmáticos e usarmos versículos isolados como pílulas mágicas em nossos aconselhamentos.

3. Um equilíbrio saudável entre consciência e graça

Talvez, uma das contribuições mais valiosas da Casuística Puritana seja sua visão equilibrada da consciência humana — uma consciência que pode ser fraca, cauterizada, perturbada, escrupulosa ou consolada. Puritanos tratavam da consciência como um espaço de diálogo entre a alma e o evangelho.

Conselheiros bíblicos frequentemente lidam com cristãos marcados por culpa excessiva, vergonha desordenada ou dureza de coração. A sabedoria puritana sobre a avaliação e o cuidado da consciência é um mapa precioso para esses processos.

4. O trato realista e compassivo com o sofrimento

Ao contrário da caricatura de severidade e insensibilidade, os puritanos eram profundamente pastorais, compassivos e realistas acerca das dores humanas. Eles foram amplamente reconhecidos como médicos da alma habilidosos em aplicar consolo, lamentação e esperança.

O Aconselhamento Bíblico, também muitas vezes acusado de ser muito duro, pode se enriquecer da tradição puritana, ao cultivar um cuidado mais pastoral, num trato terno e paciente, que não minimiza o sofrimento nem o romantiza, mas o coloca no horizonte da redenção.

5. A visão holística da vida cristã e suas lutas

Os puritanos eram atentos aos diversos aspectos da vida — hábitos, disciplina, relacionamentos, adoração, afeições, trabalho, vocação, luta contra o pecado, batalha espiritual, questões físicas e ambientais; e olhavam para todas essas questões debaixo do senhorio de Cristo e da soberania de Deus. Essa abordagem impede que o aconselhamento se torne reducionista e restritivo, isolando o trato do problema específico do aconselhamento da vida do aconselhado como um todo.

CONCLUSÃO

A casuística puritana não deve ser importada como sistema fechado e nem tentar ser revivida por nós de forma anacrônica. Ele teve seu tempo e seu lugar. Entretanto, como sabedoria comprovada pela história, pode enriquecer nosso aconselhamento bíblico com profundidade teológica, precisão espiritual e sensibilidade pastoral.

Diante do exposto, trago a proposta do que poderia ser chamada de uma casuística do aconselhamento noutético, em que possamos desenvolver uma metodologia de Estudos de Caso que nos leve ao aprimoramento contínuo do nosso modelo de aconselhamento.

 

Referências

2. BEEKE, Joel; JONES, Mark. Teologia Puritana: Doutrina para a Vida. São Paulo: Nova Vida, 2016. p.1309.

3. Ibid., p.1310.

4. Ibid., p.1326

5. BAXTER, Richard. A Christian Directory (Vol. 1-4).e-book, Good Press, 2023. Disponível em: https://www.wook.pt/ebook/a-christian-directory-vol-1-4-richard-baxter/29507932. Acessado em 27 nov 2025.

6. KELLER, Timothy. Puritan Resources for Biblical Counseling. Christian Counseling & Educational Foundation, April 14 2016. Disponível em: https://www.ccef.org/puritan-resources-biblical-counseling/. Acesso em: 21 nov. 2025.

7. BEEKE, Joel; JONES, Mark. Teologia Puritana: Doutrina para a Vida. São Paulo: Nova Vida, 2016. p.1285.

8. OWEN, John. Works of John Owen, Vol. VI,(p.176). Acesso remoto da Biblioteca da Universidade de Michigan. Disponível em: https://quod.lib.umich.edu/cgi/t/text/text-idx?cc=eebo;c=eebo;idno=a53715.0001.001;node=A53715.0001.001:17;seq=179. Acesso em: 27 nov 2025.

 

Sobre o autor: Alex Mello é associado, professor e membro do Comitê de Ética da ABCB. Casado com Jacqueline. Pastor na Primeira Igreja Batista no Parque Meia Lua em Jacareí-SP e membro da equipe ministerial da Every Home for Christ Brasil. Mestre em Ministérios Familiares pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida e graduado em Teologia. Graduado em Engenharia Eletrônica, Especialização em Administração Pública e Mestre em Ciências Aeroespaciais.

Revisor: Fernando Muniz

 
 
 

Comentários


ABCB © 2023. Todos os direitos reservados.

bottom of page