Sabedoria para Conversas Difíceis
- Sacha Alexandre Mendes

- há 7 dias
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Por: Sacha Alexandre Mendes e Daniel Dias
Conversas difíceis fazem parte do ministério e da vida. De tempos em tempos, com maior ou menor intensidade e frequência, todos nós enfrentamos conversas difíceis, onde estamos vulneráveis a experimentar a dura realidade das palavras que podem promover destruição (Tiago 3:6). Mas essa não é a história toda. A Palavra de Deus nos dá esperança para enfrentarmos conversas difíceis. O evangelho transforma corações, que são a fonte de toda palavra proferida (Lucas 6:45). Assim, não só é possível crescermos em sabedoria para conversas difíceis como também é esperado que os filhos de Deus aprendam uma comunicação regida pelos valores dos céus.
Por que uma conversa é difícil?
Nem todas as conversas difíceis são iguais. Caminhar com sabedoria nas conversas difíceis começa por entender o que torna a conversa “difícil”. As possibilidades voltam para o coração, pois é a partir de lá que interpretamos a realidade ao nosso redor (Provérbios 4:23).
Uma conversa pode ser difícil porque o assunto ameaça um “ídolo" venerado. Não queremos perder aquilo que amamos e a conversa pela frente pode trazer justamente essa ameaça. Assim, respondemos com ansiedade, ira, escapismo, etc. Não queremos ter a “conversa difícil”, pois pode resultar em perdas indesejadas e não queremos colocar nossos tesouros em risco (Mateus 6:19–25).
A conversa também se torna difícil porque exige um nível de trabalho que nem sempre estamos dispostos a fazer. Algumas conversas necessárias requerem um preparo anterior ou pode levar a mais trabalho posterior. Diante da possibilidade de mais trabalho, podemos não investimos tanto tempo numa conversa que não julgamos trazer benefícios que compensam. Assim, é comum uma resposta pecaminosa de omissão às conversas difíceis, focadas nos tesouros imediatos do conforto.
Seja como for, você precisa avaliar o que torna a conversa difícil para você ou para seu interlocutor. Algumas perguntas que podem ajudar a explorar a dificuldade de uma conversa:
• A conversa traz uma ameaça a algo muito desejado (isto é, ídolos)? O que?
• Existe um histórico de problemas passados relacionados com o tema em questão? Como foram as reações dos envolvidos? Isso deixou consequências?
• Como é o relacionamento com os envolvidos? Existe um relacionamento de autoridade?
• Quais são os padrões de comunicação dos envolvidos? Existe conhecimento e prática de uma comunicação piedosa? Existe um padrão pecaminoso que já deixou consequências em um ou mais dos envolvidos?
• Quão é a urgência dessa conversa acontecer? Existe o perigo da pressa excessiva e também da omissão!
A resposta a essas perguntas nos ajudam a desenvolver a abordagem para os próximos passos. Ore por cada passo, na certeza de que quando reconhecemos a vontade de Deus e a pedimos, recebemos (1 João 5:14).
Lide com os fatos, não com motivações
Sem dúvidas, queremos chegar no coração, mas precisamos reconhecer que o caminho até o coração não é por meio da sabedoria humana, mas do Senhor. Diante da limitação humana, o ponto de partida precisa ser os fatos, não as motivações. O julgamento precipitado e humano de motivações é insensatez e pecado (Provérbios 18:13; 19:2; Mateus 7:1–2). Quando julgamos motivações sem lidar com um entendimento correto dos fatos, somamos percepções humanas a situações difíceis que se tornam confusas. O julgamento de motivações com percepções tortas soma ofensas, aumentando a tensão. Então, o início da conversa difícil precisa enfatizar os fatos. Isso não irá facilitar a conversa fácil, mas certamente não irá torná-la ainda mais difícil por colocar novos elementos de tensão.
Lidar com os fatos é um ponto de partida, mas não é um passo simples. Pessoas também são interpretadoras de fatos. Memórias são atividades interpretativas através das lentes dos desejos do presentes. Por exemplo, o povo de Israel foi incapaz de interpretar seu passado no Egito à luz do desejo por comida no deserto (Números 11:4, 5). E soma-se a isso a fragilidade humana em lembrar e reportar de forma precisa os fatos envolvidos. Mais uma vez, reconhecemos que somente Deus é conhecedor de todos os fatos. Assim, não é exagero reforçar a necessidade de oração para que Ele nos ajude a lembrar o que pode nos dar nossa esperança (Lamentações 3:21).
Mire nas motivações, não somente nos fatos
A reconciliação verdadeira e a união harmoniosa acontecem a partir do coração, onde residem as motivações. Assim, lideramos conversas a partir dos fatos com o objetivo de chegar no coração; na dependência de que o caminho será traçado pelo poder do Espírito Santo por meio da Palavra de Deus (Salmos 139:23–24; Hebreus 4:12–13).
O próprio processo de coleta de informações nos fornece os elementos necessários para chegarmos no coração. A maneira como reportamos fatos carrega o que entendemos ser importante, nossos tesouros (Lucas 6:43–45). Assim, num conflito, as complexas categorias da vida são resumidas (1) nas coisas que promovem o que eu quero e (2) nas coisas que ameaçam o que eu quero (Tiago 4:1–3). Entender isso nos guia para ajudar todos os envolvidos a encontrar um caminho agradável a Deus, o objetivo supremo de todas as áreas da vida (1 Coríntios 10:31; 2Coríntios 5:9, 15). Já mencionei a importância da oração? Ore com confiança, que em meio às provas das conversas difíceis, o Senhor prometeu nos dar sabedoria (Tiago 1:5).
Cultive expectativas piedosas
Não queremos ser tolos otimistas nem cínicos pessimistas, quanto às conversas difíceis. O evangelho nos dá um referencial diferente, colocando nossos olhos voltados para os céus ainda que mantendo nossos pés firmes no chão. Precisamos de ambos para liderar e participar de conversas difíceis. Enquanto o Espírito Santo trabalha nos corações dos envolvidos, nossa postura serena será resultado da esperança do agir do Senhor (Efésios 3:20–21; Filipenses 1:6) e da ciência da realidade caída (Salmo 120; Romanos 12:18 — nem sempre será possível ter paz com todos os homens). Ainda assim, seja qual for o momento em que você se encontra entre a esperança do céu e a dura realidade da terra, aguardamos a restauração completa daquele que garantiu o bem para os que O temem (Romanos 8:28–29). E é por causa da real esperança que nos aguarda que já podemos louvar a Deus, enquanto aguardamos o fim de toda e cada conversa difícil. Jesus Cristo triunfou sobre a morte, garantindo que um dia seremos como Ele é, vivendo a eternidade em harmonia uns com os outros (1 João 3:2, 3). Ore agradecendo a Deus pelo fim iminente de toda a conversa difícil, mesmo aquelas através das quais aprendemos a esperar a resposta final!
Encare a conversa difícil na perspectiva celestial
Vivenciar conversas difíceis faz parte do plano de Deus para nós, e devem ser encaradas na perspectiva celestial, orientadas pela Palavra de Deus. Deus mesmo teve conversas difíceis relatadas na Bíblia, como a dEle com Caim em Genesis 4.9-16. Essa conversa terminou com “Caim saindo da presença do Senhor” (versículo 16), sem quebrantamento, sem contrição, sem arrependimento, sem conversão. Ele saiu para ser bem-sucedido em seus empreendimentos humanos, mas longe do Senhor e da Sua vontade.
Quantas conversas difíceis o Senhor Jesus teve até morrer na cruz por nós. Acho que podemos dizer que Ele também as teve depois de ressuscitar, já glorificado, (1) com seus discípulos no caminho de Emaús e (2) com Tomé, para quem o Senhor termina dizendo: “pare de duvidar e creia” (João 20.27). A essas conversas, as respostas foram diferentes da de Caim: foram (1) obediência, com correção de rumo, e (2) adoração!
As barreiras do nosso coração que se opõem as “conversas difíceis” foram acima resumidas como sendo nossos tesouros, que não queremos colocar em risco. Em 2Pedro 1.3-16, somos lembrados que “nos têm sido doadas as suas [de Deus] preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina”. Enquanto vivemos pelas preciosas e grandes promessas do Senhor ele, ou seja, colocamos elas na posição do tesouro, Deus mesmo nos torna cada vez mais como Ele mesmo é. Ele transforma o nosso coração. E nesse mesmo trecho nos é apresentada uma receita que pode ser exercitada na prática nas conversas difíceis:
1) A sua fé, acrescente a virtude – de Filipenses 4.8: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento”. Como ocupar nossa mente com essas coisas, senão com a atitude virtuosa de...
2) À virtude acrescente o conhecimento – nas conversas difíceis, procure saber a verdade dos fatos e não se contentar com a região cinzenta; acima de tudo, busque o conhecimento do Senhor, o que Ele diz na Sua palavra, o que vem do púlpito, o conselho do Senhor.
3) Ao conhecimento acrescente o domínio próprio – certamente, o conhecimento acrescentado enfrentará “ao menos as vezes” a oposição do meu querer. Por isso, para não somente saber, mas fazer a vontade de Deus, acrescente o domínio próprio.
4) Ao domínio próprio acrescente a perseverança – uma coisa é fazer o que devo ao invés do que quero uma vez. Outra, é fazer daqui em diante e para sempre. Para isso, acrescente a perseverança.
5) À perseverança acrescente a piedade – depois da vitória de perseverar, você olhará para o lado e perceberá que nem todos fazem o mesmo. Por isso, acrescente a piedade, palavra do Novo Testamento que no Velho Testamento significa o “temor do Senhor”. Faça o que deve e persevere por temor ao Senhor e não porque os outros fazem. Tema a Deus e não a homens.
6) À piedade acrescente a fraternidade (amor fraternal) – cuidado, não julgue quem não está fazendo o que deve; ou se ache melhor porque você cumpriu os passos anteriores. Isso é farisaísmo. Ame o seu irmão e continue perdoando-o, mesmo que 70 x 7 vezes no mesmo dia e pela mesma razão (Lucas 17.3, 4). A cada passo, mantenha em mente os passos anteriores.
7) Ao amor fraternal acrescente o amor Ágape – Às vezes você não ganhará nada em troca, dos outros ou da situação. Ame sem esperar nada em troca. Nessas horas se tornará evidente que Cristo é tudo para você. Ele é quem diz: “aquele que crê nos meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai e eu também o amarei e me manifestarei a ele”.
Somos chamados 2 Pedro 1.6 a diligentemente cumprir esse ciclo virtuoso, “porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Amém! Que assim seja!
Perguntas para reflexão
• Quais conversas difíceis você precisa ter nos próximos dias?
• O que você entende que está “em jogo” nessas conversas?
• Como Tiago 1:20 ajuda você a pensar sobre sua postura em todas essas etapas?
Sobre os autores:
Alexandre “Sacha” Mendes é um dos pastores da Igreja Batista Maranata em São José dos Campos, Brasil. Ele também atua como Diretor de Visão e Expansão da Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos (ABCB) e como membro do Conselho Diretor da Biblical Counseling Coalition (BCC). Sacha é graduado em Economia pela Universidade de São Paulo. Recebeu formação teológica no Seminário Bíblico Palavra da Vida (Brasil), possui mestrado em Aconselhamento Bíblico pela The Master’s University, mestrado em Divindade pelo Faith Bible Seminary e doutorado em Ministério com ênfase em Pregação Expositiva pelo Southeastern Baptist Theological Seminary. Ele e sua esposa, Ana, têm três filhos: Pedro, Tito e Marina.
Daniel Dias da Silva é diácono da Igreja Batista Maranata, em São José dos Campos, Brasil, onde também atua como Líder de Planejamento do Louvor. É graduado em Engenharia Mecânica e de Produção pela PUC-Rio. É casado com Danielle e pai de Rafael, Vinícius, João e Mariana.
Editor: Alex Mello



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