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A Raridade do Contentamento

há 8 horas
8 min de leitura

Por  Gustavo Santos

 

            Duas coisas são consideradas visões muito raras neste mundo: um jovem humilde e um velho contente”.[1] A frase é de J. C. Ryle, mas podia ter sido escrita ontem. Contentamento é raro porque exige o contrário do que nosso coração naturalmente busca.

            A vida, no geral, é mais marcada por reclamação do que por gratidão. Sempre queremos mais, sempre sentimos que falta alguma coisa, estamos sempre correndo atrás do que imaginamos que vai finalmente nos trazer alegria e satisfação.

            Você já reparou que, todo ano, depois do feriado de Ação de Graças, vem a Black Friday? A gente agradece — e no dia seguinte já está comprando, porque, no fundo, acha que ainda não tem o suficiente para ser realmente feliz.

            Para alguns, o que falta é uma condição financeira melhor. Para outros, um relacionamento diferente. Para outros ainda, mais um investimento, uma propriedade — ou coisas mais simples, como um celular novo, um fim de semana de descanso, um carro diferente.

            Nós queremos coisas, e na maior parte das vezes são coisas boas. Não há nada de errado em querê-las. O problema é que colocamos essas coisas à frente de tudo, e construímos a vida em cima delas. No esforço de alcançar o que tanto queremos, acabamos perdendo o que realmente importa — a única fonte real de alegria e satisfação.

            E porque perdemos essa fonte, não conseguimos ser gratos de verdade. Sentimos um vazio, porque não temos o que achamos que precisamos. Nos cansamos, porque corremos demais. Essa é a condição de muita gente: cansada, desanimada, reclamando.

            Não precisa ser assim. Podemos — e devemos — viver contentes apesar das circunstâncias. Porque contentamento é possível.

            Contentamento é possível

            Costumamos falar de gratidão como se ela fosse o ponto de partida. Mas por trás da gratidão está outra palavra: contentamento — a ideia de estar satisfeito. Contentamento é um estado, não um momento. É o que nos leva a agradecer, e não o contrário: só conseguimos agradecer de verdade quando já estamos contentes. Você pode ter a melhor circunstância do mundo e, ainda assim, achar motivo para reclamar, se não estiver contente por dentro.

            Foi isso que Paulo escreveu aos Filipenses:

“Digo isto, não porque esteja necessitado, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Sei o que é passar necessidade e sei também o que é ter em abundância; aprendi o segredo de toda e qualquer circunstância, tanto de estar alimentado como de ter fome, tanto de ter em abundância como de passar necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.”

Filipenses 4.11–13, NAA

 

 

            “Tudo posso” — ou seja, contentamento é possível em qualquer situação, boa ou terrível. Mas o mesmo texto também deixa claro que isso não é natural. É algo que precisa ser aprendido.

            Contentamento precisa ser aprendido

            Ninguém nasce contente. O que nascemos sabendo é reclamar — literalmente. A primeira coisa que um recém-nascido faz é chorar, e é choro para tudo dali em diante.

            Isso não quer dizer que as circunstâncias difíceis sejam confortáveis — elas não são. Mas nossa reação natural ao desconforto (e às vezes até ao conforto) é a reclamação, o oposto exato da gratidão.

            Somos rápidos para ver o erro, a dificuldade, o problema — e lentos para ver a provisão de Deus. É como estar diante de uma janela embaçada: só enxergamos a sujeira, e depois de um tempo nos acostumamos a achar que é só sujeira que existe do outro lado.

            Paulo sabia disso por experiência. Ele precisou aprender.

            O problema nunca está na circunstância

            Paulo aprendeu a estar contente tendo muito e tendo pouco. Comendo bem e passando fome. Cantando e orando quando as coisas iam bem, e cantando e orando quando estava preso, açoitado.

            O texto quer dizer algo que todo mundo já ouviu, mas que poucos realmente vivem: contentamento não depende das circunstâncias. É fácil concordar com isso na teoria. Na prática, seguimos pensando: “se eu tivesse um relacionamento diferente, seria contente… se tivesse mais dinheiro… se tivesse outro tipo de filho… se morasse em outro lugar… se soubesse o que vai acontecer ano que vem… se aquela pessoa fizesse o trabalho dela direito…

            É uma mentira, e dá para provar: muita gente tem exatamente aquilo que acha que falta, e continua descontente. A Bíblia conta essa história sobre o povo de Israel. Deus os tirou da escravidão no Egito — e eles reclamaram, e quiseram voltar. Faltou água; Deus deu água — e continuaram reclamando. Faltou comida; Deus deu maná — e continuaram reclamando, agora querendo carne. Deus mandou codornizes — e ainda assim não ficaram contentes (Êxodo 16–17; Números 11). O contentamento deles nunca dependeu das circunstâncias, porque contentamento nunca depende das circunstâncias.

            Duas pessoas passam pela mesma situação e reagem de formas completamente diferentes. Se a circunstância é a mesma, o que explica a diferença? O problema nunca está lá fora. Está no coração.

            E é exatamente por isso que Paulo não escreve “tudo posso porque mudei de circunstância.” Ele escreve “tudo posso naquele que me fortalece.” O segredo não é uma circunstância diferente — é uma pessoa.

            Contentamento é encontrado numa pessoa

            Enquanto não entendermos isso, vamos continuar buscando em circunstâncias diferentes, e não vamos encontrar. Vamos apenas nos cansar mais, nos frustrar mais, cavar um poço cada vez mais fundo.

            A única solução é uma pessoa: Jesus. O Filho de Deus veio viver a vida perfeita que nós, por causa do pecado, não conseguimos viver — e nosso pecado é exatamente essa tendência de correr atrás de tudo, menos dele. Jesus veio para perdoar esse pecado, pagar o preço dele na cruz, e nos dar um relacionamento verdadeiro com Deus — o único relacionamento capaz de satisfazer de verdade o coração.

            Salomão, em Eclesiastes, descreve isso como um vazio eterno posto dentro de nós (Eclesiastes 3.11). As coisas daqui não foram feitas para nos dar contentamento — foram feitas para apontar para quem as criou. C. S. Lewis colocou isso de um jeito que ficou famoso: “Se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que fui feito para um outro mundo.”[2]

            Fomos criados para encontrar satisfação e alegria em Jesus. Contentamento é entender que ele é suficiente — de um jeito que, mesmo perdendo tudo, ainda teríamos tudo, porque ainda o teríamos.

            Isso muda a pergunta que fazemos quando estamos descontentes. Não precisamos viver cansados, correndo atrás de uma mudança de circunstância que talvez nunca aconteça — e que, mesmo se acontecesse, não resolveria o problema. O que precisamos é dele.

            Como cultivar contentamento

            Entender isso é o primeiro passo. Mas contentamento, como Paulo diz, se aprende — e aprender é um processo, não um evento. Os puritanos escreveram bastante sobre esse   processo, provavelmente porque viviam num mundo muito mais duro que o nosso e entendiam bem como o coração humano tende a supervalorizar as coisas desta terra.[3] Deles dá para tirar quatro práticas concretas, que sigo de perto aqui.[4]

Praticar gratidão de propósito. Paulo e Silas louvaram a Deus na prisão, à noite, depois de apanhar (Atos 16.25). Ninguém sente vontade de agradecer numa hora dessas. Eles escolheram. Gratidão intencional — nomear em voz alta o que Deus já fez — é o primeiro antídoto contra a reclamação.

Cultivar mentalidade eterna. Lembrar que “nossa cidadania está nos céus” (Filipenses 3.20) muda o peso das perdas de hoje. Investimento pode evaporar, casa pode cair, emprego pode acabar, relacionamento pode azedar — mas nada disso é o fim da história para quem está em Cristo.

Confiar na providência de Deus, mesmo sem entender. Jó aprendeu isso do jeito mais difícil (Jó 38–42). Deus não deve satisfação sobre como conduz cada circunstância — mas prometeu que tudo coopera para o bem de quem o ama (Romanos 8.28). Descansar nisso, sem exigir explicação, é maturidade.

Valorizar Cristo acima de tudo. Se colocamos valor desproporcional em coisas deste mundo, elas vão dominar nosso coração — mas nunca vão satisfazer, porque não foram feitas para isso. Jeremiah Burroughs descreve bem essa ilusão: viver descontente com as coisas deste mundo não é porque temos pouco delas, mas porque elas são incapazes de satisfazer a alma. É como tentar matar a fome engolindo vento — e achar que o problema é não ter engolido vento suficiente.[5]



Perguntas para reflexão

1.  Em que área da vida você tem dito, mesmo que só para si mesmo: “se eu tivesse X, eu seria contente”? O que isso revela sobre onde você tem buscado satisfação?

2.  Pense numa circunstância recente que te tirou do sério. O que você sentiu que estava fora do seu controle? Como você reagiu — e o que essa reação mostra sobre o que seu coração estava exigindo naquele momento?

3.  Gratidão intencional: liste três coisas específicas que Deus já fez por você — não em geral, mas nesta semana. O que muda quando você nomeia isso em voz alta?

4.  Onde você tem buscado contentamento fora de Cristo? O que esse “onde” promete entregar que, na prática, nunca entrega?

5.  Qual seria um passo concreto — não um sentimento, um passo — para viver mais contente essa semana, independente de qualquer circunstância mudar?

 

 

Passagens complementares para leitura

–   Salmo 131 — a alma quieta como “criança desmamada nos braços de sua mãe.”

–   1 Pedro 5.6–7 — lançar as ansiedades sobre Deus, porque ele cuida de nós.

–   Mateus 6.25–34 — não andeis ansiosos; olhai as aves do céu.

–   Romanos 8.28 — todas as coisas cooperam para o bem de quem ama a Deus.

–   2 Coríntios 4.16–18 — a leve e momentânea tribulação produz eterno peso de glória.

–   1 Timóteo 6.6–8 — a piedade com contentamento é grande ganho.

–   Hebreus 13.5 — guardai-vos da ganância; contentai-vos com o que tendes.

–   Filipenses 3.7–8 — tudo tenho por perda pela excelência do conhecimento de Cristo.

Para aprofundar

–   William B. Barcley, O Segredo do Contentamento (São Paulo: NUTRA Publicações, 2014) — a leitura mais indicada para se aprofundar de forma completa e prática.

–   Jeremiah Burroughs, A Joia Rara do Contentamento Cristão — a obra clássica por trás de quase tudo que se escreve sobre o tema hoje. Versão simplificada em português: Aprendendo a Estar Contente (PES, 2003).

–   Andrew M. Davis, O Poder do Contentamento Cristão (Editora Peregrino, 2021) — releitura contemporânea de Burroughs, com linguagem mais atual.

Autor: Gustavo Santos é casado com Amanda e pai do Isaac e do Ian. Pastor na Igreja Batista Farol e coordenador acadêmico no Seminário Foco, ambos em São José dos Campos (SP). É mestre em Divindade pelo Faith Bible Seminary e associado da ABCB.

Revisão: Alex Mello


[1]J. C. Ryle, citado em William B. Barcley, The Secret of Contentment (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2010), 14.

[2]C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, livro 3, cap. 10.

[3]Sobre o contexto puritano e por que escreveram tanto sobre o tema, ver Stephen Yuille, entrevistado por Dale Johnson, “The Puritans on Contentment”, podcast Truth in Love 338, Association of Certified Biblical Counselors, 22 nov. 2021: biblicalcounseling.com/resource-library/podcast-episodes/the-puritans-on-contentment

[4]As quatro práticas seguem de perto Stephen Yuille, “Practicing Contentment”, ACBC, 22 jan. 2021: biblicalcounseling.com/resource-library/articles/practicing-contentment. Ver também Jon Hollifield, “The Practice of Biblical Contentment”, ACBC, 12 mar. 2026: biblicalcounseling.com/resource-library/articles/the-practice-of-biblical-contenment; e Collin Vassallo, “Optimizing Christian Contentment in Biblical Counseling”, ACBC, 1 out. 2021: biblicalcounseling.com/resource-library/articles/optimizing-christian-contentment-in-biblical-counseling

[5]Jeremiah Burroughs, The Rare Jewel of Christian Contentment (1648; reimpr., Carlisle, PA: Banner of Truth Trust, 2000), 19. Definição clássica de contentamento: “aquele doce, íntimo, quieto e gracioso estado de espírito que se submete livremente e se deleita na disposição sábia e paterna de Deus em toda condição.”

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