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Quando o aconselhamento termina mal


 Por: Alyssa Preiser

 

Adoramos ouvir histórias de sucesso em aconselhamento. É revigorante ouvir quando os aconselhados ouvem e recebem sabedoria da Palavra de Deus, compartilham sua esperança e alegria renovada com outros e se arrependem rapidamente. É o que todos esperamos e pelo que oramos ao começar a aconselhar alguém. Mas e quando as coisas não terminam assim? Quando o aconselhamento termina mal e nos sentimos responsáveis? Podemos ter errado em pequenos detalhes: fazendo suposições precipitadas ou aplicando passagens bíblicas de forma equivocada. Ou talvez em grandes erros: não confrontando o pecado, ignorando sinais de abuso ou deixando de perceber a automutilação. São casos difíceis de lidar. Como conselheiros, como podemos nos orientar para processar corretamente essas situações e o nosso papel nelas?

A Oportunidade Que Não Devemos Perder

Ao refletirmos sobre relacionamentos de aconselhamento mal sucedidos, podemos nos sentir cansados, frustrados, tristes e envergonhados. Ficamos exaustos pela árdua batalha de lutar pela verdade bíblica sem ver frutos. Podemos querer passar rapidamente para o próximo caso, deixando este para trás como uma lembrança distante. Antes de seguirmos em frente precipitadamente, há muito o que aprendermos aqui. Nesses momentos desconfortáveis, devemos sentir, com razão, o peso dessas situações. Em todos os casos de aconselhamento, testemunhamos a obra de Deus na vida de um pecador e desempenhamos um papel nela. Particularmente nos casos mais difíceis, sentimos o peso de nossas palavras e ações com ainda mais clareza. Como conselheiros, temos o papel profético de levar a Palavra de Deus e Sua autoridade às pessoas que sofrem (ver Catecismo de Heidelberg, Perguntas 31 e 32). Este trabalho não deve ser encarado levianamente. Em nossos espaços de aconselhamento, pisamos no solo sagrado da obra do Espírito Santo na alma dessas pessoas. Antes de prosseguirmos para aliviar nosso desconforto, é bom nos lembrarmos novamente do privilégio e da responsabilidade que temos no aconselhamento bíblico.

A crítica que não deveríamos ouvir

Quando um aconselhamento termina de uma forma que talvez não esperássemos, é bom parar e refletir. Mas existem várias críticas que poderiam ser feitas facilmente, porém levariam a conclusões equivocadas. Primeiro, não devemos interpretar isso como um sinal para buscar novas técnicas ou estratégias. Nossa tentação pode ser procurar perguntas mais profundas para sondar o coração ou recentes descobertas da psiquiatria. As técnicas e estratégias para conduzir os aconselhados às Escrituras nunca se tornarão obsoletas. Nosso Deus é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hebreus 13.8). Embora devamos certamente continuar a aprimorar nossas habilidades, fazê-lo para aliviar a culpa pode levar à dependência de algo que não as Escrituras. O perigo a evitar aqui é a mentira de que, se tivéssemos empregado uma técnica mais perfeita, as coisas teriam sido diferentes. Tal mentira não reconhece a necessidade de arrependimento, que é necessário em quase todas as situações de aconselhamento e jamais pode ser fabricado ou manipulado, mesmo pelos conselheiros mais habilidosos.

Em segundo lugar, não devemos interpretar isso como uma crítica de que não somos chamados ou capacitados para aconselhar. Embora alguns de nós possamos fazer isso profissionalmente ou oficialmente, aconselhar uns aos outros faz parte da vida cotidiana de um crente (Provérbios 27.9; 1Tessalonicenses 5.14). Evitar o aconselhamento não pode ser parte da solução. Devemos também reconhecer que mesmo os conselheiros mais bem preparados não têm uma taxa de sucesso de 100%. Isaías e Jeremias aconselharam o povo de Deus por um total combinado de mais de 100 capítulos, numa mistura de exortação e encorajamento esperançoso, repreendendo a nação por suas falhas e estendendo belas promessas da graça de Deus. Eles elevaram os olhos das pessoas para a grandeza de Deus e lhes deram uma visão do que significa uma resposta fiel. É tudo o que um conselheiro poderia desejar em eloquência e abrangência. No entanto, as nações de Israel e Judá continuaram a se rebelar e logo foram exiladas. Esses conselheiros das nações falaram com perfeita autoridade bíblica, inspirada e fundamentada, e ainda assim viram seus aconselhados caírem em pecados devastadores. Apesar disso, eles foram chamados por Deus para continuar em seus papéis.

Terceiro, e mais importante, não devemos interpretar nossos fracassos no aconselhamento como uma crítica ao Senhor. Jeremias e Isaías ensinaram que a Palavra de Deus cumprirá o Seu propósito, independentemente do que aconteça ao final do aconselhamento. Isaías, falando em nome do Senhor, lembra à nação que “assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei” (Isaías 55.11). Jeremias oferece uma definição de como esses propósitos podem se manifestar: “Eis que ponho as minhas palavras na tua boca… para arrancares e para derrubares, para destruíres e para arruinares, para edificares e para plantares” (Jeremias 1.9b-10). A Palavra de Deus tanto amolece quanto endurece os corações, segundo o Seu plano soberano (Ezequiel 36.26; Êxodo 9.12; Romanos 9.18). Os propósitos do Senhor podem nem sempre resultar em desfechos felizes, mas isso não significa que o Senhor ou a Sua Palavra tenham falhado.

O aconselhamento que devemos procurar

Os profetas do Antigo Testamento podem nos ajudar novamente aqui. Em Jonas, vemos um conselheiro que precisa se arrepender. Ele foge, reclama e se revolta contra Deus por sua misericórdia. Há momentos em que os conselheiros devem se arrepender de suas ações. Nossas próprias limitações e falhas humanas não param na porta da sala de aconselhamento. Falamos sem pensar, julgamos precipitadamente, temos opiniões tendenciosas, atribuímos culpa incorretamente e muito mais. Mas devemos nos lembrar, assim como lembramos aos nossos aconselhados, que há muita graça e liberdade para nós na cruz. Somos livres para confessar coisas que deixamos de dizer por engano ou fardos desnecessários que adicionamos aos ombros de nossos aconselhados. Devemos nos arrepender, com razão, pelas áreas em que falhamos.

Em Jeremias, vemos um conselheiro que se entristece e lamenta por um aconselhado pecador que não obedece às instruções. Jeremias ministra ao povo há anos, mas a obstinação deles ainda os coloca sob forte disciplina do Senhor. Seus escritos em Lamentações nos ajudam a compreender sua reação. Ele se entristece com a destruição que assola a nação e com o sofrimento do povo. Ele clama para que o Senhor veja e responda. Ele é tomado por fortes emoções em uma situação tão desesperadora. Por nossa parte, podemos nos sentir tentados a sentir raiva de nosso aconselhado, mas a melhor resposta é a tristeza. Devemos resistir à tentação de nos tornarmos amargos ou cínicos e, em vez disso, pedir ao Espírito Santo que santifique nossas emoções. Devemos lamentar, com razão, os momentos em que nossos aconselhados rejeitaram o Senhor.

Em Isaías, vemos um conselheiro que se apega à esperança no poder restaurador de Deus. Isaías 40.1 oferece palavras maravilhosas aos exilados: “Consolem, consolem o meu povo, diz o seu Deus. Falem com ternura a Jerusalém e anunciem a ela que a sua guerra terminou e que a sua iniquidade foi perdoada”. Provavelmente não veremos o fim da história de nossos aconselhados nesta vida. Nossos aconselhamentos são projetados para serem transitórios; caminhamos ao lado de outros por um curto período e, então, para o bem ou para o mal, eles levarão nossas palavras (e a Palavra de Deus) consigo para o resto de suas vidas. Não temos ideia do que o Senhor planejou para eles nos dias, semanas e anos vindouros. Deus é o único que pode dar o crescimento que ansiamos ver em nossos aconselhados (1Coríntios 3.6). Ele o fará, se assim o desejar, no Seu tempo. Podemos esperar, com razão, que o Senhor restaure a vida das cinzas.

Quando analisamos um formulário de admissão ou recebemos um novo aconselhado pela primeira vez, nunca sabemos como nosso tempo juntos terminará. Simplesmente usamos os dons que o Senhor nos deu pela fé para continuar a ministrar fielmente e orar a Deus, que tanto amacia quanto endurece os corações, para dar nova vida.

Questões para reflexão

1. Quando um aconselhado rejeita a verdade bíblica ou um relacionamento de aconselhamento termina mal, a quem seu coração se volta em busca de soluções?

2. Há alguma tendência a tirar conclusões precipitadas, falta de empatia ou tendência a evitar pecados dos quais você precisa se arrepender em seu aconselhamento?

3. Se o aconselhamento inspirado de Isaías e Jeremias ainda pode resultar em consequências devastadoras, como devemos redefinir o que significa um aconselhamento bem-sucedido?

 

Sobre o autor

Alyssa  Preiser (PhD, Michigan State University) é esposa de um plantador de igrejas e atua em sua igreja local oferecendo aconselhamento bíblico e ministério feminino. Ela mora em Michigan com o marido, Ben, e seus três filhos.

 

Traduzido com autorização da Biblical Couseling Coalition:

Publicado original:

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