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Ame para Escutar



Por: Lucas Sabatier

 

No ano passado, fui convidado a escrever o prefácio da edição portuguesa de Learning to Listen: Essential Skills for Every Counselor (Aprendendo a Escutar: Habilidades Essenciais para Todo Conselheiro Cristão, PRO NOBIS Editora[1]), de Joe Hussung. Fiquei muito feliz em escrevê-lo por algumas razões. Primeiro, porque Joe é um grande amigo. Segundo, porque verdadeiramente creio que ele fez um excelente trabalho ao unir a graça do evangelho com a habilidade de aconselhamento da escuta, conectando-as no âmbito do amor. Este artigo é a reprodução desse prefácio (autorizada pela Pro Nobis Editora).




Ouvindo por Amor

Escutar é um ato de amor. Quando escutamos, acolhemos mais do que palavras — acolhemos a própria pessoa. Escutar é mais do que captar sons articulados; é receber, como uma dádiva, o compartilhamento da vida. É abrir espaço no coração para que o outro exista diante de nós com suas dores, lutas e perguntas. Nós, cristãos, escutamos porque amamos.

 

E, se amamos, é porque antes fomos amados. Escutamos porque fomos escutados por um Deus que se inclina para ouvir o clamor dos seus filhos. Ele escuta não porque nossas palavras sejam suficientemente comoventes ou dignas, mas porque é gracioso. Deus escuta por amor — um amor que encontra sua justificativa final no próprio caráter divino (1Jo 4.16).

 

Quando Deus escolhe para si um povo e o redime por meio do sangue de seu Filho, Cristo Jesus, ele também o convoca e capacita a viver de maneira que reflita a sua beleza. É por isso que a igreja se engaja na tarefa do cuidado, fundamentada na revelação de quem Deus é, expressa em sua Palavra. E é por isso também que a igreja se dedica a escutar aqueles a quem deseja servir. Escutamos para ministrar a verdade bíblica de forma específica e particular às realidades concretas de cada pessoa.

 

Aprendendo a Ouvir: Uma Visão Geral

Joseph Hussung tem dedicado sua vida ao cuidado do povo de Deus, especialmente por meio do aconselhamento bíblico. Com sensibilidade pastoral e experiência prática, ele oferece nesta obra um encorajamento necessário e precioso aos conselheiros bíblicos: o chamado à escuta. Ao organizar o livro em torno de três pilares — o propósito, a postura e a prática da escuta —, Hussung não se limita a uma discussão teológica, como também nos presenteia com uma profunda reflexão ética sobre como a escuta cristã deve refletir a compaixão de Cristo. Afinal, a escuta verdadeiramente amorosa só pode ser encontrada naqueles que desfrutam da presença capacitadora do próprio Cristo.

 

Além disso, Hussung dedica boa parte do livro a considerações práticas. Os muitos exemplos de conversas, frequentemente acompanhados de anotações elucidativas, tornam o conteúdo acessível e facilmente aplicável. Essa combinação de clareza teórica com sabedoria prática torna o livro um verdadeiro guia para quem deseja crescer no ministério de aconselhamento.

 

A postura amorosa é essencial, mas o amor exige intencionalidade. Assim, o autor nos leva a refletir: Como posso escutar melhor? Como posso organizar meus encontros de forma a priorizar adequadamente a escuta e compreender melhor o que é compartilhado? Como posso formular perguntas que conduzam a uma escuta mais intencional, atenta e sensível?

 

Conselheiro bíblico, este livro é para você; cristão — mesmo que não tenha se aprofundado no ministério de aconselhamento —, este livro é para você também. Afinal, todos nós — treinados ou não — somos chamados a aconselhar uns aos outros no contexto da nossa comunidade da fé (Cl 3.16).

 

Ouvindo como Amor

Escutar é uma expressão prática do amor cristão e, portanto, um ato que reflete o evangelho. Não, escutar não é a boa notícia em si; escutar não salva, não cura por si só. Escutar não substitui a proclamação da verdade. No entanto, escutar manifesta a disposição cuidadora e redentora do nosso Salvador que habita em nós. É por isso que conselheiros bíblicos devem se dedicar com seriedade a escutar bem (Pv 18.13).

 

A escuta cristã, portanto, deve refletir o amor descrito por Paulo em 1Coríntios 13.4-7. O apóstolo nos apresenta ali o caráter do amor, e, porquanto escutar é um ato de amor, então é por essas qualidades que devemos medir e formar nossa escuta.

•    Nossa escuta deve ser paciente, respeitando o ritmo de quem fala, sem pressa para responder ou corrigir.

•    Nossa escuta deve ser bondosa, expressando gentileza, compaixão e acolhimento — não apenas nas palavras, mas também no tom de voz, na postura corporal e na presença atenta.

•    Nossa escuta não pode ser invejosa, evitando comparações e competições, mas, em humildade, buscando a edificação do outro.

•    Nossa escuta não deve se vangloriar, nem se apoiar em uma postura orgulhosa que busca mostrar conhecimento, cheia de autojustiça, mas ser voltada ao encorajamento e ao suporte do próximo.

•    Nossa escuta não deve maltratar, jamais usando como instrumento de julgamento ou ridicularização a vulnerabilidade de quem compartilha suas lutas. Ao contrário, ela deve afirmar e preservar a dignidade de quem fala, reconhecendo-o como alguém feito à imagem de Deus.

•    Nossa escuta não busca interesses próprios, mas tem como agenda o bem de quem fala.

•    Nossa escuta não se irrita com facilidade, mas, com longanimidade e compaixão, acolhe lamentos, confusões, repetições e até mesmo acusações.

•    Nossa escuta não guarda rancor, mas oferece um espaço seguro para a confissão de pecados, a exposição de fraquezas e o derramar de lágrimas.

•    Nossa escuta não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade — a verdade bíblica que confronta e conforta, discernindo e transformando as injustiças que fluem de corações corrompidos pelo pecado (Pv 20.5; 2Tm 3.16-17; Hb 4.12).

•    Nossa escuta tudo sofre, protegendo quem fala por meio da confidencialidade e do cuidado contra interpretações maliciosas ou fofocas.

•    Nossa escuta tudo crê, confiando na contínua ação de Deus na vida daquele que está diante de nós, mesmo quando tudo parece caótico.

•    Nossa escuta tudo espera, mantendo os olhos fixos na esperança do evangelho, mesmo quando a história narrada parece sem solução.

•    Nossa escuta tudo suporta, perseverando com paciência na longa e por vezes cansativa caminhada que o cuidado de almas exige.

 

Escutar é, de fato, uma atitude de amor que requer intencionalidade. Para todos os conselheiros e cristãos que desejam crescer nesta arte de ouvir com amor, este livro se apresenta como uma ferramenta preciosa. Para os conselheiros bíblicos, aprender a escutar é um trabalho de amor.

 

Perguntas para Reflexão

Em minhas conversas de aconselhamento, eu escuto com amor?

 

Meu objetivo é demonstrar meu próprio conhecimento e “resolver” o problema, ou proporcionar um espaço seguro para a outra pessoa?

Escuto pacientemente no ritmo que os aconselhados precisam, ou desenvolvi o hábito de “ensaiar” minha resposta antes que eles terminem de falar?

 

Sobre o Autor

Lucas Sabatier M. Leite é professor de aconselhamento bíblico no Seminário Bíblico Palavra da Vida e no Seminário Foco Seminary, no Brasil, onde atua como missionário da Faith Global Missions. Ele obteve seu doutorado em Aconselhamento Bíblico e Teologia Sistemática pelo Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville, Kentucky. Também é membro do Comitê de Ética da ABCB e do Comitê Editorial do BLOG da ABCB. Lucas é casado com Bella e juntos têm três filhos.


Editor: Alex Mello

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