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Compreendendo a crise de meia-idade — Parte 1

Quando eu era jovem, via o divórcio como algo estranho, até que um dos meus melhores amigos me ligou para dizer que seus pais estavam se divorciando porque seu pai estava passando por uma “crise de meia-idade”. Tendo ouvido essa terminologia antes (aplicada principalmente a homens), aceitei essa explicação sem questionar, e pensei que deveria ser um fenômeno real que deveria ser temido por alguém com cerca de trinta e cinco anos de idade. Pensando como uma criança (1 Coríntios 13.11), fiquei seriamente preocupado com outros adultos que eu conhecia nessa faixa etária, e me perguntei como alguém poderia evitar uma situação tão fatal. Parecia que não havia escolha real para a vítima de uma crise de meia-idade. Eu estava convencido de que era algum problema semelhante a uma doença com início inevitável em uma certa idade.

Hoje, a expressão “crise de meia-idade” não parece ser usada com tanta frequência como era há anos atrás. Talvez porque agora todas as pessoas em todas as idades parecem estar em algum tipo de “crise”, infelizmente. Ou talvez, uma vez que o divórcio é atualmente aceito como lugar-comum, o termo se tornou menos significativo. Independente disso, meditei recentemente sobre o que pode estar no cerne de uma crise de meia-idade.

O que é uma crise de meia-idade?

Eu descreveria uma crise de meia-idade como um momento de reflexão e avaliação das escolhas feitas no início da vida que levaram às circunstâncias atuais, muitas vezes acompanhadas por pensamentos de remorso. Existe uma crença persistente de que o futuro continuará a ser sombrio se não houver medidas drásticas que possam trazer uma mudança no curso atual. Por exemplo, um homem de meia-idade neste tipo de crise está desiludido com sua identidade, status social, relacionamentos, carreira, perspectiva financeira, e busca medidas radicais para consertar o presente na esperança de que isso leve a resultados melhores e preferidos nos dias a frente. Biblicamente falando, a raiz do problema está em um coração idólatra que deseja algo diferente e percebido como melhor do que o que Deus providenciou. Em outras palavras, a providência de Deus é deficiente na mente da pessoa que passa por uma crise de meia-idade por causa de desejos errados no seu coração. A Bíblia chama isso de descontentamento e, em última análise, está enraizado na idolatria.

WebMD descreve a crise de meia-idade de um homem desta forma:

“Muitos homens passam por uma fase em que olham com seriedade para a vida que estão vivendo. Eles acham que poderiam ser mais felizes e, se precisarem fazer uma grande mudança, sentem o desejo de fazê-la logo. Esses pensamentos podem desencadear uma crise de meia-idade. Se perceber que você está nesta fase e, em seguida, fizer escolhas sábias, você pode sair de uma crise de meia-idade e levar uma vida mais feliz.”<1>

Embora eu concorde com parte dessa definição, não concordo que os pensamentos decorrentes de “olhar com seriedade para a vida que estão vivendo” possam desencadear uma crise de meia-idade, como se isso fosse um transtorno real que não pode ser interrompido. Pode ser algo comum na sociedade, mas não é um distúrbio ou doença que assola alguns homens como consequência de pensarem na sua vida. Conselheiros bíblicos devem ter cuidado com a linguagem que usam, porque a palavra “gatilho” infere que esses homens são vítimas das emoções produzidas em seus pensamentos. Como seguidores de Cristo, não devemos permitir que nossas emoções, que são muito reais, nos guiem. Somos chamados a obedecer aos mandamentos de Deus, independentemente de como nos sentimos. Recebemos a ordem de conduzir nossas emoções com nossos pensamentos focados nos princípios ensinados por Cristo e encontrados nas Escrituras. Esses homens, que têm essa crise de meia-idade descrita acima por WebMD, estão falhando em guardar seus corações e pensamentos como Provérbios 4.23 nos exorta.<2>

Acho contraditório que o artigo sugira que, por um lado, a crise de meia-idade seja desencadeada pelos pensamentos reflexivos (e emoções implícitas) de alguém, mas, por outro lado, dizer que a mesma pessoa é supostamente responsável por perceber e reconhecer que ele está nesta “fase” de uma crise de meia-idade. Parece conversa fiada, pois um evento desencadeado pode ser revertido por uma pessoa que estava impotente e incapaz de evitar o início da crise da meia-idade. Então, a crença mundial subjacente é que essa pessoa será capaz de começar a fazer “escolhas sábias” para “orientar-se” para fora da crise da meia-idade rumo a “uma vida mais feliz”. Se o homem está tendo essa crise de meia-idade como resultado do desencadeamento dos seus pensamentos, então como ele vai se desviar dela, especialmente sem aconselhamento ou sem a verdade da Palavra de Deus para confrontar seus pensamentos errados? Essa suposição na definição torna a pessoa com crise de meia-idade uma vítima, mas, em seguida, informa rapidamente ao sofredor da crise de meia-idade que a principal fonte de força para mudar é o eu! O mundo dá muito crédito à capacidade do homem de sair do poço de seus pensamentos errados. O problema é que o homem na chamada crise de meia-idade está avaliando erroneamente sua vida com critérios antibíblicos e seguindo os desejos de seu próprio coração (Provérbios 3.5–8). Ele não pode encontrar respostas dentro de si porque elas não estão lá; ele precisa da verdade que vem de fora de si mesmo—da Palavra de Deus.

Vamos voltar à história que mencionei anteriormente, sobre o pai do meu amigo escolher se divorciar de sua mãe. O pai declarou que simplesmente não estava mais feliz. Essa era sua justificativa, e ele acreditava que precisava tomar medidas drásticas para encontrar a felicidade que merecia. Ele não tinha outra mulher em sua vida e não estava cometendo adultério. Ele relatou sentir-se infeliz com as pressões financeiras, sua percepção de falta de liberdade com filhos e uma esposa e com sua vida em geral. Ele viu o divórcio como uma oportunidade para começar de novo. Isso parece ser o que muitos homens em uma chamada crise de meia-idade desejam—um recomeço que leve a uma nova direção na vida, fazendo o que ele quer, sem levar em conta as consequências. É como um mulligan,<3> ou quando uma pessoa comete um erro terrível em um jogo e implora: “Posso tentar de novo?” Claro, se a pessoa não deseja obedecer a Deus, ela não tem nenhuma razão obrigatória para continuar casada, separada das motivações mundanas. Se ela acredita na mentira de que o divórcio será um novo começo, ela o escolherá todas as vezes, sem reconhecer os novos problemas que essa escolha criará.

Discernindo a diferença

Eu concordo com algumas das ideias na definição de WebMD acima. Por exemplo, eu acho que essa “crise” ocorre quando um homem chega a um ponto em sua vida em que está examinando suas escolhas passadas. Ele pode até estar sofrendo as consequências dessas escolhas agora. Algumas dessas consequências negativas podem ser bastante preocupantes, e seu coração pode estar cheio de arrependimento. Alguns homens resolvem e preferem consertar a situação sozinhos, em vez de pedir ajuda. Nesses casos, os homens fazem mudanças drásticas sem dar ouvidos a nenhum conselho externo. Provérbios 16.18 nos lembra que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda”, e o homem que faz mudanças tão drásticas geralmente o faz sem ouvir a opinião de outros que o amam, incluindo Deus por meio de Sua Palavra. Provérbios 18.1 nos lembra que “o solitário busca o seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria”. No próximo post, discutirei algumas implicações do DSM-5 relacionadas a este tópico, mencionarei um exemplo bíblico do que podemos chamar de crise da meia-idade, falarei um pouco sobre remorso e desespero, e como o evangelho nos liberta.

Questões para reflexão

De que maneiras você viu que o uso da terminologia pelo mundo torna cada vez mais desafiador falar a verdade bíblica para aqueles em sua esfera de influência? Quais são algumas narrativas bíblicas que podem oferecer esperança e ajuda concreta para alguém que aprendeu a terminologia do mundo sobre a meia-idade e está experimentando um arrependimento que leva ao desespero?

Este post, de autoria de Mark Shaw, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Gustavo Santos e revisado por Lucas Sabatier. Republicado mediante autorização.

*Os conceitos e posicionamentos emitidos nos textos aqui publicados são de inteira responsabilidade dos autores originais, não refletindo, necessariamente, a opinião da direção e membros da ABCB em sua totalidade.

<1> Eric Metcalf, "How to Get Out of a Midlife Crisis" modificado pela última vez em 30 de novembro de 2012, http://www.webmd.com/men/features/mens-midlife-crisis#1. Tradução livre.

<2> Para seu crédito, os escritores do artigo do WebMD mencionam que sentimentos não são ordens, que ser grato é recomendado, e falar com um pastor faz parte da lista de pontos de ação no final do artigo!

<3> Um mulligan é uma segunda chance de realizar uma ação, geralmente depois que a primeira chance deu errado devido à má sorte ou a um erro crasso. Seu significado mais conhecido é no golfe, em que um jogador pode informalmente repetir uma tacada, mesmo que isso seja contra as regras formais do esporte.

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