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Compreendendo a crise de meia-idade — Parte 2

Na Parte 1 deste artigo, discuti o uso do mundo do termo meia-idade ou crise de meia-idade e as implicações dessa terminologia. Comecei descrevendo minha experiência pessoal de infância, quando um amigo me explicou que seu pai estava se divorciando de sua mãe porque “ele estava passando por uma crise de meia-idade”. Passei a contrastar as descrições do mundo acerca desse fenômeno frequentemente observado com algumas construções bíblicas que descrevem uma crise de meia-idade. Como Corpo de Cristo, precisamos sempre estar atentos à maneira como o mundo descreve experiências de vida.

Recebemos a ordem bíblica de conduzir nossas emoções (não segui-las) com nossos pensamentos focados nos princípios ensinados por Cristo e encontrados nas Escrituras. Nosso objetivo deve ser sempre agradar a Deus (2 Coríntios 5.9). Os homens que passam pela chamada crise de meia-idade estão falhando em guardar seus corações e pensamentos, conforme Provérbios 4.23 comanda.

Crise da meia-idade na Bíblia?

Admito que posso estar exagerando um pouco, mas quando penso sobre uma crise da meia-idade na Bíblia, penso no rei Davi à época em que cometeu adultério com Bate-Seba. O rei Davi estava provavelmente na casa dos quarenta e poucos anos, e Bate-Seba nos vinte e poucos quando o relacionamento adúltero começou. Em 2 Samuel 11.1, a Bíblia diz: “Decorrido um ano, no tempo em que os reis costumam sair para a guerra, enviou Davi a Joabe, e seus servos, com ele, e a todo o Israel, que destruíram os filhos de Amom e sitiaram Rabá; porém Davi ficou em Jerusalém.” Novamente, eu posso estar exagerando um pouco, e não estou chamando isso de crise de meia-idade de Davi, mas a Bíblia diz que este foi um “tempo em que os reis costumam sair para a guerra”, e, ainda assim, Davi ficou em casa em vez de cumprir suas responsabilidades. Então, Davi tomou a esposa de outro homem, tratou-a como se ela fosse sua própria esposa e, então, tentou encobrir o pecado sem sucesso. Sua graça salvadora foi que ele foi confrontado com a verdade pelo profeta Natã e confessou seu pecado contra o Senhor (2 Samuel 12.13). Não sabemos o que Davi estava pensando, mas suas ações parecem semelhantes às de homens que estão passando pelo que o mundo chama de crise da meia-idade. Biblicamente, nós descreveríamos as ações de Davi como idolatria, adultério e outros pecados inerentes. Ironicamente, o rei Davi se encaixa na descrição do WebMD que mencionei na Parte 1—que o tédio e a busca de novos riscos são uma motivação para uma crise de meia-idade.<1>

O rei Davi se arrependeu. As consequências de suas escolhas pecaminosas não foram apagadas pelo resto de sua vida, mas ele confessou e se arrependeu, reconciliando seu relacionamento com o Senhor. A mesma confissão e arrependimento podem acontecer para os homens de hoje que tomam decisões pecaminosas como as do rei Davi. As escolhas de um homem na chamada crise da meia-idade não precisam separá-lo eternamente de Deus se ele se arrepender, mas ele pode não ser capaz de apagar as consequências negativas pelo resto de sua vida terrena.

Remorso e desespero

É comum refletirmos sobre nossas decisões de vida em qualquer momento. Se essas decisões levaram a uma série de consequências negativas, pode haver sentimentos de tristeza, remorso e até desespero, mas esses sentimentos não têm como objetivo nos afastar de Deus. Em vez disso, esses sentimentos têm a intenção de nos conduzir a Deus por meio da confissão e do arrependimento (Provérbios 28.13). Há esperança em Cristo de que Deus é redentor e Ele nunca desperdiça nossa dor. Ele usa todas as situações em nossas vidas para pressionar nossos corações. Quando eles são pressionados, os motivos do coração que requerem confissão e arrependimento são revelados para nos transformar à imagem de Cristo e retornar nosso foco às Boas Novas do evangelho—que podemos ser perdoados (ou que já somos) e que agora temos o poder de mudar nosso pensamento e ações para sermos mais e mais semelhantes a Cristo.

DSM-5 e a Bíblia

O mundo tenta descrever os padrões observáveis ​​como transtornos e os coloca em sua “bíblia” chamada Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Algumas de suas descrições são boas; entretanto, sua prescrição de mudança geralmente carece de um fundamento da verdade. Conselheiros e pastores bíblicos fiéis podem concordar com algumas das descrições do DSM-5, mas iriam discordar das práticas prescritivas quando não são bíblicas. As crises de meia-idade não são encontradas no DSM-5 com esse nome, mas se enquadram na categoria de transtorno de ajustamento, em que uma pessoa não está lidando bem com algum estressor conhecido (ou conjunto de estressores). Às vezes, o mundo da psicologia se refere a isso como depressão situacional decorrente de uma atitude desesperada diante de circunstâncias muito desafiadoras. Novamente, essa é uma descrição precisa, mas a prescrição para a mudança para os cristãos requer escolhas que glorifiquem ao Senhor.

Deus em Sua Palavra também descreve padrões de comportamento. Como o criador dos seres humanos e Aquele que advertiu Adão sobre as consequências duradouras da desobediência à Sua Palavra (Gênesis 2.17), Deus conhece o coração da humanidade melhor do que ninguém. A Bíblia nos chama a viver uma vida de entrega em obediência à Palavra de Deus, apesar de nossas circunstâncias, não importando o quão desafiadoras possam ser. Primeira Coríntios 10.31 é claramente um chamado para que até mesmo as tarefas mais mundanas e comuns da vida sejam feitas para a glória de Deus: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. Em todos os sentidos, é exigido que a pessoa viva de uma forma que agrade a Deus, de acordo com 2 Coríntios 5.9: “É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para lhe sermos agradáveis”.

Jesus advertiu o admirador casual de Seu ministério em Lucas 14.25–35 dizendo que para ser verdadeiramente um de Seus discípulos, você é chamado a sofrer adversidades. Seguir a Cristo não é um chamado para uma vida de prazer, comodidade e conforto, mas requer desistir de tudo que é caro porque servir a Jesus é mais precioso. “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo” (Lucas 14.33).

Os homens em crise de meia-idade são frequentemente tentados por seu descontentamento e corações idólatras a abandonar suas esposas, filhos, vocação, comunidade cristã e muito mais, mas eles não podem escolher sucumbir a essa tentação. Em vez disso, os homens que se descobrem pensando dessa maneira precisam pedir ajuda com humildade, porque Deus os chama a permanecer fiéis e perseverar nas adversidades. Isso é verdade independentemente das circunstâncias virem do sofrimento devido ao sistema caído do mundo ou de suas escolhas erradas. De qualquer forma, um homem é chamado a cumprir suas responsabilidades e viver uma vida de gratidão. Um homem casado é chamado para liderar sua família, e um homem solteiro é chamado a permanecer comprometido em seguir a Cristo, vivendo de uma forma que traga honra a Deus.

Conclusão

Remorso após reflexão pode ser um problema para todas as pessoas, não apenas para os homens na casa dos trinta ou quarenta anos em uma chamada crise de meia-idade; no entanto, essa fase da vida está madura para contemplar as circunstâncias da vida. Viver em um mundo amaldiçoado pelo pecado resulta em sofrimento (às vezes por causa de más escolhas anteriores), mas o cristão que se encontra nesse estado é chamado à obediência para se tornar mais semelhante a Cristo. Jesus suportou a vergonha da cruz (Hebreus 12.2) concentrando-se na vontade e na glória de Deus.

Questões para reflexão

Como você pode encorajar alguém com remorso a pensar diferente e biblicamente sobre suas circunstâncias? Qualquer um pode ser tentado a desistir quando as circunstâncias se tornam excessivamente desafiadoras, então como sua comunidade cristã pode se envolver dando incentivo para aqueles que estão enfrentando dificuldades?

Este post, de autoria de Mark Shaw, foi originalmente publicado no blog da Biblical Counseling Coalition. Traduzido por Gustavo Santos e revisado por Lucas Sabatier. Republicado mediante autorização.

*Os conceitos e posicionamentos emitidos nos textos aqui publicados são de inteira responsabilidade dos autores originais, não refletindo, necessariamente, a opinião da direção e membros da ABCB em sua totalidade.

<1> Eric Metcalf, "How to Get Out of a Midlife Crisis" modificado pela última vez em 30 de novembro de 2012, http://www.webmd.com/men/features/mens-midlife-crisis#1

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