UMA PROPOSTA DE ACONSELHAMENTO BÍBLICO MISSIONAL
- Alex Mello

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Por Alex Mello
Em 15 de outubro de 2020, a ABCB publicou em seu blog o artigo “A grande comissão requer aconselhamento bíblico?” de autoria do Dr. RobertJones. Muito do que Jones aborda neste artigo, originalmente escrito para o blog da Biblical Counseling Coalition, é um reverberar de um artigo mais completo publicado no Journal of Biblical Couseling1, em que ele apresenta uma proposta do que chamou de ‘Evangelismo baseado em problemas’. Nestes artigos, Jones defende o papel do aconselhamento bíblico para o cumprimento da Grande Comissão de fazer discípulos.
Nesse breve texto, desejo compartilhar os primeiros insights do que tenho chamado de Aconselhamento Bíblico Missional, o qual pode ser definido como o ministério de aplicar o evangelho às lutas humanas de modo que pessoas sejam reconciliadas com Deus e ensinadas a guardar todas as coisas ensinadas por Cristo, cumprindo assim a Grande Comissão deixada pelo Senhor (Mt 28.19-20).
Quando olhamos para a “Grande Comissão” dada por Jesus em Mateus 28.19-20, o mandamento de fazer discípulos é composto de duas partes que aparecem essencialmente unidas: “Batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e Ensinando a guardar todas as coisas ordenadas”. O verbo batizando claramente faz menção ao ritual de inserção de novos conversos na comunidade da fé e o verbo ensinando aponta para como devemos ajudar pessoas a praticar os ensinos de Jesus no dia a dia. Tudo isso é fazer discípulos.
Creio que o aconselhamento bíblico é um ministério que por excelência busca ensinar pessoas a colocarem em prática as verdades bíblicas ordenadas, sempre ancoradas no evangelho. O evangelho é central quando ajudamos crentes a obedecer e também é central quando ensinamos não crentes sobre a necessidade de obedecer.
Neste primeiro artigo, desejo mostrar como o aconselhamento bíblico é uma excelente oportunidade para apresentar o evangelho a não crentes.
1. Reconheça oportunidades evangelísticas
Em nossos contatos informais com nossos familiares, amigos, vizinhose colegas de trabalho, em algum momento as conversas caminharão para falar sobre algum problema ou dificuldade enfrentada por eles. Essas conversas ganharão maior ou menor profundidade dependendo da empatia e da sabedoria que demonstremos.
Podemos ter diferentes reações quando pessoas compartilham seus problemas conosco.
a) Podemos fugir da conversa sobre problemas, pois, elas são pesadas e desagradáveis;
b) podemos simplesmente lamentar o fato de a pessoa estar passando pelo problema, sermos simpáticas e não práticas;
c) podemos falar dos nossos próprios problemas, mostrar alguma empatia e quase nenhuma sabedoria; ou
d) podemos ver essa conversa como uma oportunidade evangelística em que demonstraremos amor ao próximo, enquanto apresentamos a ele o amor de Deus.
Toda conversa com não crentes tem o potencial de se tornar uma conversa evangelística, mas quando uma pessoa não crente confia em nós ao ponto de abrir seu coração e falar de seus problemas, essa conversa se torna uma oportunidade muito maior que não deve jamais ser desperdiçada. Devemos seguir na conversa sobre os problemas da pessoa, ampliando cada vez mais a oportunidade para apresentar o evangelho.
2. Aborde o problema de forma sábia, amorosa e bíblica
Quando pessoas não cristãs compartilham seus problemas conosco, podemos perceber isso como uma oportunidade evangelística e rapidamente apresentar a elas o ‘Plano da Salvação em João’, ou ‘As Quatro Leis Espirituais’ ou usar algum outro método de evangelismo. Uma abordagem direta assim, em um momento em que a pessoa compartilha um problema pode parecer forçada e pouco amorosa.
Nós devemos de modo sábio trazer estas conversas para uma perspectiva bíblica. Como conselheiros bíblicos cremos que na suficiência das Escrituras para tratar de todas as questões humanas. Os problemas cotidianos comuns aos homens, crentes e descrentes, são abordados, por exemplo, em Provérbios ou Eclesiastes. Os Salmos trazem descrições profundas dos sentimentos e emoções. O livro de Jó e a carta de Tiago, dentre outras, falam do sofrimento. Também, podemos falar de diversos personagens bíblicos que enfrentaram problemas semelhantes aos que as pessoas atualmente enfrentam.
Talvez você possa começar a conduzir a conversa dizendo algo do tipo:
“Eu entendo isso. Você sabia que Bíblia fala sobre esse seu problema. A Bíblia diz que ...”
“Que interessante, sabia que a Bíblia traz a história de pessoas que também enfrentaram situações semelhantes, por exemplo ...”
Essa abordagem mantém uma postura amorosa mostrando que você está realmente interessado e não ignora o problema da pessoa, ao mesmo tempo em que começa a trazer a conversa para uma perspectiva espiritual centrada na Palavra de Deus. Sabemos que toda a Bíblia aponta para Cristo, portanto ao trazer textos que falam dos problemas e dificuldades das pessoas encontraremos um ponto de contato natural para apresentar o Salvador.
3. Conecte o problema pessoal ao Evangelho
Comece ouvindo muito mais do que falando. Entre no mundo da pessoa, gere empatia (entre na sua dor), procure meios de entrar em seu coração e conhecer a sua luta. Ore durante a conversa para que o Espírito Santo te de as palavras que trazem Cristo ao encontro dos problemas da pessoa.
Vejamos, por exemplo, uma conversa em torno de conflitos conjugais:
- Uma amiga compartilha alguns problemas que está tendo com seu esposo.
- Você escuta pacientemente a queixa, sem, contudo, reforçar o ataque ao marido. Você não quer transformar o marido no problema, quando o real problema é o pecado.
- Você reconhece que casamentos podem ser muito difíceis e que esposos podem agir de uma maneira ruim e até opressora, então, você pergunta se a pessoa sabe qual a raiz de todos os conflitos conjugais?
- Então você apresenta Gênesis 3.16: “E à mulher disse: ... o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará.” Você e sua amiga podem então falar das consequências do pecado para um casamento
- Em meio a um conselho sábio e outro, você pode abordar como as mulheres devem se relacionar com seus maridos como a igreja se relaciona com Cristo (Efésios 5.22-24) e então faz a pergunta: Como é seu relacionamento com Cristo?
- Você pode mostrar a ela que a aliança de amor no casamento reflete uma aliança de amor perfeita de Cristo com seu povo e então passa a convidá-la para viver essa aliança com Cristo e deixar que esse amor transborde para a sua aliança com seu marido.
4. Tenha expectativas realistas
Ao realizarmos um evangelismo proporcionado por problemas, podemos esperar o mesmo resultado que qualquer outra forma de evangelismo:
a) algumas pessoas se arrependerão e crerão e outras pessoas rejeitarão. Nós não devemos ficar frustrados pelas pessoas não aceitarem a Cristo após nosso aconselhamento, pois, muitos também rejeitaram a pregação do nosso Senhor.
b) Por outro lado, quando estamos ajudando pessoas a resolverem biblicamente seus problemas, à medida que aceitam Jesus como seu salvador, já podemos considerar a continuidade desta conversa em volta dos problemas da vida como o início de um discipulado, pois, a pessoa está aprendendo a lidar biblicamente com as questões da vida.
Também pode ser que as pessoas seguirão nosso conselho ou não. É possível que aqueles que ouvirem nossos conselhos baseados na Bíblia encontrem um bom encaminhamento de seus problemas práticos e isso, embora não seja nosso alvo final, já é bom na medida em que alivia o sofrimento do próximo.
Sabemos que o resultado esperado definitivo é a salvação do perdido, mas, pode ser que assim como Jesus começou seu plano de se revelar aos homens muitas vezes atendendo suas necessidades físicas, o conselho bíblico em relação aos problemas pode ser o primeiro passo para que pessoas conheçam a Deus como salvador.
Conclusão
Por causa do pecado no mundo, todos nós enfrentamos problemas e estamos cercados de pessoas que enfrentam problemas. Pessoas descrentes tendem, geralmente, devido a seu estilo de vida pecaminoso, a enfrentar mais problemas e problemas mais complexos. Essas pessoas não possuem uma perspectiva eterna de seus problemas e nós podemos ajuda-los a abordarem seus problemas sob uma perspectiva redentiva.
O evangelismo a partir dos problemas mostra-se um método amoroso e eficaz de apresentar o evangelho utilizando os pressupostos do aconselhamento bíblico. Ele conecta de modo sábio e amoroso o problema individual do não crente a sabedoria bíblica e daí à mensagem central da redenção em Cristo.
Questões para refletir:
1 – Estou aproveitando as oportunidades de anunciar o amor de Deus quando pessoas compartilham seus problemas comigo?
2 – Minha apresentação do evangelho é sábia e amorosa, mantendo a atenção no problema apresentado pela pessoa enquanto busco oportunidades para apresentar o evangelho?
3 -Meu aconselhamento de crentes e descrentes é de igual forma uma proclamação do evangelho?
Referência Bibliográfica:
Robert Jones. Biblical Counseling: An Opportunity for Problem-Based Evangelism, Journal Biblical Counseling 31:1 (2017). Pág. 75-92
Autor: Alex Mello é pastor da Primeira Igreja Batista do Parque Meia Lua (Jacareí-SP), onde coordena e aconselha em ministério de Aconselhamento dirigido a comunidade local. É membro da Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos (ABCB), onde atua como instrutor e integra o Conselho de Ética. Também faz parte da equipe ministerial da Every Home for Christ Brasil. O pastor Alex é mestre em Ministérios Familiares e doutorando em Ministério Pastoral e Missões, pesquisando o papel do aconselhamento bíblico como elemento estruturante da grande comissão na igreja local. É graduado em engenharia e mestre em Ciências Aeroespaciais, com pós graduação nas áreas de gestão, administração pública e pedagogia empresarial. É casado com Jacqueline e pai de Júlia.
Revisor: Lucas Sabatier



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